A seiva
Alex Sens Fiziy
A criada carrega o candelabro com a mão direita, a esquerda balança fechada dentro do
bolso largo do avental de juta. Duas velas estão apagadas, semimortas, os pavios como um
resto desalinhado e duro da noite, pretos até o talo onde somem no corpo branco. A
terceira e última vai abrindo as paredes com a luz amarelada, a chama ascendendo como se
os tetos a chamassem para um baile, a vontade esticando o corpo ardente, tão preso à
única perna, o pavio; a saia azul roda por perto, encosta no ar mais frio e solta uma
faísca orgulhosa. A mão balança de medo, ainda não se acostumou com a cera como a tia
acostumada nos rituais de sábado. Para atravessar a sala é preciso passar entre duas
poltronas muito próximas; se o movimento é desastrado, a cera tomba, ergue-se a
queimadura entre as juntas dos dedos. Ela passa como quem descobre um sentimento escondido
nos móveis, raivoso, espumando dentro do tecido. A gota desce, de braços abertos, mas
antes de mergulhar na pele escura, para. Estalactite, olha assombrada para a paciência da
criada, espera pelas companheiras que hão de tentar a morte na pele firme. A mulher sorri
no escuro, até bater o candelabro num móvel, sentindo a seiva quente cobrir-lhe a boca
do decote.
Alex Sens Fuziy nasceu em Florianópolis (SC) no ano de 1988, e
atualmente mora no sul de Minas Gerais. Tem contos e poemas publicados em 6 antologias e
em sites literários, algumas colaborações em revistas, e publicou Esdrúxulas, livro de
contos de realismo mágico e humor negro, em 2008 (edição do autor). Escrever e ler
romances ocupam a maior parte de sua vida, juntamente com a família, a fotografia, a
revisão e seus 12 cachorros.
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