Pensamentos

Augusto Monterroso


HUMOR

O humor é o realismo levado às últimas conseqüências. Com a exceção da literatura quase humorística, tudo o que o homem faz é risível ou jocoso. Na guerra, o que fazemos cessa de ser engraçado porque na guerra o homem cessa de ser engraçado. Como Eduardo Torres disse: "O homem não está contente em ser o animal mais idiota da criação; ele também se permite o luxo de ser o único que é ridículo".

EU CONHEÇO VOCÊ, MÁSCARA.

O humor e a timidez geralmente andam juntos. Você não é exceção. O humor é uma máscara e a timidez é outra. Não permita que ninguém remova ambas ao mesmo tempo.

MOTO PERPÉTUO - 1981

A vida não é um ensaio, embora tentemos muitas coisas; não é uma história, embora inventemos muitas coisas; não é um poema, embora sonhemos muitas coisas. O ensaio sobre a história sobre o poema sobre a vida é um moto perpétuo; é exatamente isso, moto perpétuo.

FECUNDIDADE

Hoje eu me sinto bem, como um Balzac; estou acabando esta linha.

O MUNDO

Deus ainda não criou o mundo; ele está somente imaginando-o, como se estivesse meio dormindo. É por isso que o mundo é perfeito, só que confuso.

PODE SER VERDADE

Mas eu estou perdendo qualquer semelhança que um dia possa ter tido com um escritor, à medida que minhas circunstancias econômicas têm melhorado em demasia e meus relacionamentos sociais têm se ampliado a ponto de não poder escrever nada sem ofender alguém que eu conheça ou lisonjear, involuntariamente, um dos meus protetores e benfeitores, o que compreende a maioria das pessoas.

COMO DEIXAR DE SER UM MACACO

O espírito da pesquisa não conhece limites. Nos Estados Unidos e na Europa, foi, recentemente, descoberta uma espécie de macaco latino-americano, capaz de se expressar por escrito, idêntico, talvez, ao diligente macaco que, batendo nas teclas de uma máquina de escrever, ao acaso, eventualmente reproduz os sonetos de Shakespeare. Uma coisa assim, naturalmente, maravilha essa boa gente e não faltam dispostos tradutores de nossos livros ou senhoras e cavalheiros ociosos para comprá-los, como outrora compraram as cabeças encolhidas dos índios Jivaro. Há mais de quatro séculos o frei Bartolomeu de Las Casas finalmente teve sucesso em convencer os europeus que nós éramos humanos dotados de alma porque ríamos; agora eles querem convencer a si mesmos da mesma coisa porque escrevemos.

VIVENDO JUNTOS

Alguém que sempre reclama amargamente da cruz que tem que carregar (marido, mulher, pai, mãe, avô, avó, tio, tia, irmão, irmã, filho, filha, padrasto, madrasta, enteado, enteada, sogro, sogra, genro, nora) é, ao mesmo tempo, a cruz de outra pessoa que amargamente reclama de constantemente ter que carregá-la (nora, genro, sogra, sogro, enteada, enteado, madrasta, padrasto, filha, filho, irmã, irmão, tia, tio, avó, avô, mãe, pai, mulher, marido), sendo este o seu destino na vida; de cada um, de acordo com sua habilidade e para cada um, de acordo com suas necessidades.


Augusto Monterroso
nasceu em 1921, na Guatemala. Em 1944, mudou-se para o México e, depois de muito observar a fauna daquele país e de outros, se convenceu de que "os animais se parecem tanto com o homem que às vezes é impossível distingui-los deste". Assim surgiu "A ovelha negra e outras fábulas", lançado pela Editora Record - Rio de Janeiro, 1983, com tradução de Millôr Fernandes e ilustrações de Jaguar.

O texto acima foi extraído do livro "Complet Works and other stories", University of Texas Press, 1995, págs. 95, 104, 109, 116, 133, 137 e 138, uma especial colaboração do amigo Custódio e da cantora, compositora e tradutora (além de grande amiga) Regina Werneck.

Dele disse o escritor russo que se criou nos Estados Unidos, Isaac Asimov: "Os pequenos textos de "A ovelha negra e outras fábulas", de Augusto Monterroso, aparentemente inofensivos, mordem os que deles se aproximam sem a devida cautela e deixam cicatrizes. Não por outro motivo são eficazes. Depois de ler "O macaco que quis ser escritor satírico", jamais voltei a ser o mesmo."

Foi agraciado, em 2000, com o Prêmio Príncipe de Astúrias de Letras. Um dos escritores latinos mais notáveis, Monterroso tem predileção por contos e ensaios. "O dinossauro", uma de suas obras mais célebres, é considerado o menor conto da literatura mundial: "Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá".
Augusto Monterroso faleceu em fevereiro/2003.

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