
Ana Peluso
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Um título com medo
Ana Peluso
Medo. Medo de escrever e não sair nada. Não rimar condão com fada.
Não confrontar a metáfora com a ênclise, atrás da porta que acabei
de grafar. Medo do til ter medo de altura, e transformar meu ão em
um monossilábico ao, com a redução do o a u, uma semivogal. Medo do
i não aceitar o pingo, e ao lado de um zero, formar uma facção de
códigos binários. Medo do ar não entrar pelo fonema, e este nunca
sair nasal. Medo do texto atonal. Medo da falta de rimas métricas e
assimétricas. Medo de sequestro de letras. Do papel em branco. Medo
do silêncio do teclado. Do estado hiperbólico das sentenças. Morrer
de medo. Estar aquém de um grande verso. Medo do reverso da poética.
A metálica forma do medo. Medo de escrever plástico só por sua
acepção. Medo das crases. Dos acentos circunflexos, por não
existirem os circônflacos. Medo dos flancos do dois pontos. Medo do
assombro sem exclamação. Medo do não com ponto final. Do mal uso da
cedilha. Das filhas da letra ésse quando se unem aos verbos. Do que
fazem com eles. Medo da interrogação. Medo de títulos e epígrafes.
Medo de gafes. Medo da origem das palavras. Se nascem mortas de
medo. Medo das línguas esquecidas serem as mesmas das quais me
lembro. Medo de abuso do texto. Do limite de linhas. Dos rodapés e
rubricas. Medo que o trema não seja nunca mais utilizado. E com ele
vá-se embora toda a intriga. Medo da falta de idéias. Ou do extremo
oposto. Algumas delas ressurgirem do esquecimento para o repetido
uso. Medo do p e b mudos. Do hífen do contra-ataque da curva
dramática de um texto. Do abandono entre parênteses das reticências
por medo. Medo do travessão e da vírgula. Do narrador e da terceira
pessoa. Do protagonista. Do epílogo. De uma frase sair à toa. Medo
de assinar o final do texto. Da confissão do confuso. Do mal hábito
de sentir tudo muito absurdo. E saltar. Soltar a folha cheia de
medos por cima do resto do mundo.
Ana Peluso, 1966, paulistana, poeta, ilustradora, participou de
algumas antologias, entre elas "Dezamores", Ed. Escrituras, 2003,
editou o site de arte e literatura "Officina do Pensamento" por
quatro anos, e até hoje escreve e publica ilustrações por lá.
O texto acima, inédito, nos foi gentilmente enviado pela escritora.
Leia o texto. Compre o livro.
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