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Arnaldo Nogueira Jr



Baptista-Bastos

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Último texto

Um pouco de ternura

Baptista-Bastos


Nos olhos dela habitava a bondade. Um doce sorriso embalava-lhe os lábios, e a face transparecia a tranquilidade interior de quem não fora punida pelo despeito nem agredida pelo ressentimento. Era ainda nova: vivia na linha de sombra que tenuemente divide a idade das pessoas, entre maduras e velhas. De onde viera? Que idade tinha? Ninguém sabia. Por vezes, pintava os lábios murchos. Por vezes, exibia largos decotes e mangas cavadas, eis o traço lascivo dos seios, eis os braços roliços, opulentos e sensuais. Era alta, quase imponente; porém, quando subia a rua íngreme, parecia alada, os pés quase não tocavam no chão.

Aparecera no bairro e logo se organizara uma aura de mistério em sua volta. Apesar da estatura, mantinha-se discreta e reservada, pouco falava com os vizinhos. Havia dias em que cantava; cantava alto velhas canções de amor. Nas tardes de sábado, os homens reuniam-se no clube, jogavam ao loto e à sueca e, ocasionalmente, embebedavam-se.

Ela residia num pequeno apartamento, mesmo por cima do clube. Gostava de se colocar à varanda, e os homens fitavam-na, gulosos, ávidos e sôfregos. Fingia não os ver. As mulheres remoíam raivas e amuos. Ela observava o horizonte, lá, onde o Tejo forma uma laçada, e permanecia assim: abstracta, atenta e exposta. Mas gostava que a apreciassem, e divertia-se com o ciúme das outras. Às vezes dançava ao som de uma pequena telefonia. Dançava como se estivesse a dançar com o mundo, ou, quem sabe?, a pensar em alguém que amara.

As geografias sentimentais são mais ou menos favoráveis: o bairro era bom e valia tudo o que de ele se dissesse; o resto era mau, e tudo o que de pior se dissesse nunca seria excessivo. Começaram as intrigas, as suposições pérfidas, as calúnias evasivas. Não lhe perdoavam a beleza, a dignidade da postura, a pequena viração de altivez que dela se desprendia.

Suspeitaram de tudo: que era prostituta, que vivia às custas de um proprietário de imóveis, que fazia números de nu em cabarés rascas. Chegou-lhe aos ouvidos a natureza insidiosa desses boatos. Não lhes atribuiu a menor importância, o que ainda mais arreliou as outras.

Saía de casa logo pela manhã, regressava tarde, ocasionalmente ausentava-se pela noite. Acumulavam-se as suspeições. Até que, certo dia, deixou de aparecer. O falatório aumentou. Coisas medonhas foram ditas, como se de verdades se tratassem. Correu o tempo; uma semana passou, outra, e outra ainda. Para onde fora? Que seria feito dela? E se ele não regressasse, não pudesse regressar ou não quisesse regressar?

Depois, houve quem a visse. Era numa tarde em que a chuva, lamentosa, caía forte. Desapareceu no cotovelo da rua, quem a viu acelerou o passo para descortinar aonde ela ia. Entrou num prédio alto e antigo, de azulejos, e ao perseguidor assaltou a ideia de que a vizinha misteriosa talvez fosse mulher-a-dias. Este indivíduo tivera, em tempos, a veleidade de se relacionar com ela; porém, fora rejeitado com uma frase breve e ríspida. Era o ressentimento que o incitara àquela infausta perseguição.

Horas e horas decorreram. A chuva deixara de cair, o homem encostara-se a uma árvore, sem abandonar a vigilância ao prédio. Até que, finalmente, ela reapareceu. Olhou em derredor e, rapidamente, aproximou-se da árvore onde o outro se ocultava. Atrapalhou-se, o homem. E ela disse:

— Quer saber o que eu faço, não é?

— Bom…bom — Não sabia o que responder.

— Olhe: vendo ternura.

E desandou. Agora, uma brisa mansa, um vento acariciador, um pio de ave, e o silêncio. Era assim: todos os dias, ou quase, ela visitava casas de gente idosa, e recebia escassos euros para lhes ler jornais, revistas ou livros de histórias cordatas com finais felizes. Simplesmente um pouco de ternura.

Voltou à rua para se despedir da rua e ignorar as pessoas. As pessoas juntaram-se, viram-na subir o calçadão, puxar pelas pernas para escalar a escadaria enorme. Durante algum tempo pensaram nela. Nunca ninguém soube o seu nome, nem se foi feliz na vida.

Anos depois, um modesto cronista contou-a numa crónica humilde.


(mantida a grafia original)


Armando Baptista-Bastos (1934), é considerado um dos maiores prosadores portugueses contemporâneos. Iniciou-se como jornalista no jornal “O Século”, tendo trabalhado também no”República,”, “Europeu”, “O Diário”, “Diário Popular” e nas revistas “Cartaz”, “Almanaque”, “Época” e “Sábado”. Foi, igualmente, redator em Lisboa da Agência France Press. Usando o pseudônimo de Manuel Trindade, trabalhou na RTP – Rádio e Televisão de Portugal, nos tempos do governo de Marcelo Caetano. Foi despedido por ter sido considerado um “adversário do regime”. Porém, é no vespertino “Diário Popular”, onde trabalhou durante vinte e três anos (1965-1988), e no qual desempenhou importantes funções, que deixa sua marca,"com um estilo inconfundível" — no dizer de Adelino Gomes. Foi docente na Universidade Independente, onde lecionou a disciplina de Língua e Cultura Portuguesas. Percorreu, profissionalmente, todo o Portugal Continental e Insular, e viajou e escreveu sobre Espanha, Canárias, França, Itália, Bélgica, Irlanda, Brasil, Uruguai, Argentina, Suíça, Luxemburgo, Grécia, Áustria, Turquia, República Democrática Alemã, República Federal da Alemanha, Checoslováquia, URSS, Marrocos, Suécia, Dinamarca, Finlândia, Nigéria, Angola, Moçambique, Cabo Verde, etc.

Baptista-Bastos recebeu, entre outros, os seguintes prêmios:

Prêmio Feira do Livro de 1966.

Prêmio Nacional de Reportagem / Prêmio Gazeta de 1985, atribuído pelo Clube de Jornalistas.

Prêmio O Melhor Jornalista do Ano (1980 e 1983).

Prêmio Porto de Lisboa de 1988.

Prêmio Pen Clube de 1987 - «A Colina de Cristal»

Prêmio Cidade de Lisboa de 1987 - «A Colina de Cristal» .

Prêmio da Crítica 2002 (Atribuído, em 2003, ao romance “No Interior da Tua Ausência», e como consagração de uma obra literária).

Grande Prêmio da Crônica da APE (Associação Portuguesa de Escritores), atribuído, em 2003, ao livro «Lisboa Contada pelos Dedos», publicado em 2001.

Prêmio Gazeta de Mérito, atribuído, por unanimidade, pelo Clube de Jornalistas, em 2004.


Algumas obras do autor:

Ensaios:

O Cinema na Polêmica do Tempo / 1959

O Filme e o Realismo / 1962 / Duas edições


Ficção:


O Secreto Adeus / 1963 / Seis edições

O Passo da Serpente / 1965 / Duas edições

Cão Velho entre Flores / 1974 / Oito edições

Viagem de um pai e de um Filho pelas Ruas da Amargura / 1981 / Cinco edições

Elegia para um Caixão Vazio / 1984 / Quatro edições

A Colina de Cristal / 1987 / Quatro edições (Prêmio Pen Clube e Prêmio Cidade de Lisboa)

Um Homem Parado no Inverno / 1991 / Quatro edições

O Cavalo a Tinta-da-China / 1995 / Quatro edições

No Interior da Tua Ausência / 2002 /Quatro edições

(Entre 2000 e 2002 as Edições ASA publicaram os nove volumes de ficção do autor, sob o título geral de Biblioteca Baptista-Bastos).


Jornalismo:

As Palavras dos Outros / 1969 / Quatro edições

Cidade Diária / 1972

Capitão de Médio Curso / 1979

O Homem em Ponto / 1984

O Nome das Ruas / 1993 (Em colaboração com António Borges Coelho)

José Saramago: Aproximação a um Retrato / 1996

Fado Falado / 1999

Lisboa Contada pelos Dedos (Edição do Montepio Geral) / 2001


Disco:

O Sinal do Tempo / 1973 / Crônicas ditas pelo Autor, com música especial do maestro António Victorino d’Almeida (Edições Zip)


Cinema:

Baptista-Bastos é o autor do texto e da entrevista do filme “Belarmino”, realização de Fernando Lopes, geralmente considerado como um dos clássicos do Cinema Novo português. Trabalhou com Rogério Ceitil e Fernando Matos Silva nos documentários “Ribatejo” e “Alentejo”.


O texto (publicado na Revista do Montepio Geral - Lisboa, em Julho de 2005) e os dados sobre o autor nos foram gentilmente enviados pelo amigo e escritor participante do Releituras, José Alberto Braga.

 

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