[ Principal ][ Biografias ][ Releituras ][ Novos escritores ]

© Projeto Releituras
Arnaldo Nogueira Jr



 Haroldo Maranhão

Menu do Autor:

 

Último texto

Cortininha de filó

Haroldo Maranhão


Para mim prima é mesmo que irmã, a gente respeita, mas Bela, sei lá!, tinha uns rompantes que até me assustavam. Naquela noite, por exemplo. Eu me embalava distraidíssimo na rede. Desde menino que durmo pouco, a Bela estava careca de saber e quando menos espero quem é vejo diante de mim? A Bela. A Bela dormia de pijama, minha tia achava camisão indecente, que pijama protege, a menina pode se mexer à vontade, frioleiras de velha. Pois a Bela me aparece apenasmente de blusa de pijama! Não entendi, francamente. e se não estivesse como estava acordado, poderia até imaginar que sonhava: a Bela ali de pijama decepado. Só para provocar como me provocou, que logo fiquei agitadíssimo, me virando e revirando na rede, e a Bela feita uma estátua, nem uma palavra dizia, à espera eu acho de atitude minha, mas cadê coragem?, que conforme disse prima é irmã, e de irmã não se olha coxa, não se olha bunda, irmã pode ficar pelada que a gente nem enxerga peitinho, cabelinho, nada. A danada da Bela sabia muitíssimo bem o que estava fazendo, que chegou um ponto que não suportei semelhante sofrimento, a dois metros da dona de um corpo fantástico. Me levantei da rede e me senti empurrado para os braços da Bela, que sem mais aquela me estrangulou que nem apuizeiro, e hoje penso que ela só esperava mesmo que me levantasse da rede, porque tudo o mais foi com ela, começando por me levar pelo escuro como guia de cego e sem nenhuma-nenhuma cerimônia deitou-se comigo na cama, que depois é que eu soube que os titios tinham saído, a gente estava só em casa e eu bestando na rede, quando bem podia estar há tempos naquele céu. A única coisa que fiz mesmo foi tirar a blusa do pijama dela e mais nada, que ela cuidou do resto, professora ,mais que escolada, e para começar espetou-me com os peitinhos num abraço que quase me mata. A Bela tinha prática, um fogo tremendo. E começou a maior das confusões, eu nuínho também, que nem sabia o que era minha perna e perna da Bela, as mãos da Bela me amassando a ponto de deixar em carne viva o meu bilu-bilu, que parece que ela estava com raiva do meu bilu-bilu, mas não era raiva e sim uma aflição que deu de repente na diaba da minha prima, que queria fazer tudo ao mesmo tempo, mas tinha só duas mãos, pegava no meu troço, largava, pegava de novo, se esfregava e parava de se esfregar. Agora vejo que não era prática coisíssima nenhuma da Bela, mas uma comichão que se alastrava lá nela. De repente parou, a respiração cortada em miudinhos, dando a impressão de que tinha brincado a tarde toda de juju. E eu, lógico, parei também e ficamos feitos dois patetas, olhando o teto, quer dizer, a Bela é que olhava o teto, que eu não sabia se tínhamos terminado, se me vestia e ia embora para a rede. Nós estávamos colados, braços, coxas e pernas, de alto a baixo, parece que eu estava com uma febre de quarenta graus ou mais. Me sentia ótimo, ela podia olhar o teto o resto da vida e aí eu fechei os olhos e flutuava lele-leve, não sentia nada por baixo de mim, é como se estivesse voando, fora da cama, como se por baixo não houvesse coisa sólida, só ar. Foi quando a Bela virou-se para mim e começou a passar as unhas pela barriga me causando uma friagem e umas cócegas e pegou desta vez com uma delicadeza que até me espantou, o meu negócio inchadíssimo, parecendo que tinha sido picado por um enxame de cabas. Ela olhava para ele de muito perto, virava e revirava o cartuchinho de carne, um picolé quente, que não derretia. Percebi indecisão na Bela. E então falou a única palavra naquela noite, uma palavra só, palavra de três letras, que eu morro e não esqueço essa palavra:

“Vem!”

Ora, a Bela tinha cada uma! "Vem." Ir aonde se eu estava ali? Ela falou "vem" muito, muito delicadamente, me puxou e eu tudo deixava, deixei, fui deixando, a Bela pelo visto sabia muito bem o que estava querendo. “Vem." Ela me guiou que eu não sabia nem a décima parte da missa, às vezes se .impacientava com a minha santa burrice e para a Bela deve ter sido um trabalho dos seiscentos, mas ela insistia e insistia, acabou me botando de bruços por cima dela. Aí abriu as pernas e eu fiquei feito um bobo naquele espação sem saber o que fazer. A Bela fez tudo, tudo,.e gemia como se doesse e devia doer. Foi quando percebi que uma cortina de papel se rasgava e eu entrei por um corredorzinho ensopado. Aí deu nela um nervoso, sei lá o que foi!, ela me empurrou, me expulsando com raiva, eu mais que depressa saí, que não era nada besta de contrariar a Bela. Então percebi uma bruta mancha no lençol. O lençol tinha bem no centro um laguinho de sangue.


Haroldo Maranhão, jornalista, escritor e advogado, nasceu em Belém (PA), no dia 7 de agosto de 1927, filho do jornalista João Maranhão e de Carmem Lima Maranhão. Aos 13 anos já atuava como repórter policial no jornal A Folha do Norte, de propriedade de seu pai e de seu avô Paulo Maranhão, onde chegou a ser redator-chefe. Nos anos 40, fundou a Livraria Dom Quixote, ponto de encontro de intelectuais. Ajudado por Benedito Nunes e Mário Faustino, dirigiu a revista literária “Encontro”. Como advogado, tornou-se procurador da Caixa Econômica Federal no Rio de Janeiro (RJ), cidade onde viveu durante 20 anos. Teve trabalhos publicados em Portugal, na antiga Tchecoslováquia e nos Estados Unidos. Parte de sua obra (crônicas e histórias curtas) foi publicada em jornais e revistas brasileiros. Colaborou em publicações portuguesas e participou de antologia da Universidade de Praga.

O autor faleceu em Piabetá (RJ), no dia 15/07/2004, e foi enterrado na cidade do Rio de Janeiro.


Algumas obras:

“A Estranha Xícara” (1968),

“Chapéu de Três Bicos” (1975),

“Vôo de Galinha” (1980),

“A Morte de Haroldo Maranhão” (1981)/Prêmio União Brasileira de Escritores - SP,

“O Tetraneto Del Rey — O Torto: suas idas e vindas” (1982)/Prêmio Guimarães Rosa (1980), “Hors Concours” do Prêmio Fernando Chinaglia (1981),

“As Peles Frias” (1983)/Prêmio Instituto Nacional do Livro,

“Flauta de Bambu” (1983)/Prêmio Nacional Mobral de Crônicas e Contos,

“Os Anões” (1983)/Prêmio José Lins do Rego,

“A Porta Mágica” (1983)/Prêmio Vértice de Literatura, em Coimbra (Portugal),

“Jogos Infantis” (1986),

“Rio de Raivas” (1987),

“Senhores & Senhoras” (1989),

“Cabelos no Coração” (1990),

“Memorial do Fim” (1991).

Na área infanto-juvenil, publicou:

“Dicionarinho Maluco” (1984),.

“O Começo da Cuca” (1985),

“Quem Roubou o Bisão?” (1986),

“A Árvore é uma Vaca” (1986).

A novela “Miguel Miguel” e o livro “A Porta Mágica” foram indicados como leituras obrigatórias para os vestibulares da Universidade Federal do Pará e Universidade da Amazônia.

Música:

Em parceria com o músico Caco Velho, foi autor do samba “Esterzinha Bueno”.


Texto extraído do livro “Jogos Infantis”, Livraria Francisco Alves Editora – Rio de Janeiro, 1986, pág. 07.

 

[ Principal ][ Biografias ][ Releituras ][ Novos escritores ]

© Projeto Releituras — Todos os direitos reservados. O Projeto Releituras — um sítio sem fins lucrativos — tem como
objetivo divulgar trabalhos de escritores nacionais e estrangeiros, buscando, sempre que possível, seu lado humorístico,
satírico ou irônico. Aguardamos dos amigos leitores críticas, comentários e sugestões.
A todos, muito obrigado. Arnaldo Nogueira Júnior.
® @njo