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?Projeto Releituras
Arnaldo Nogueira Jr



Ilustração: Daniel Bueno
Ilustração: Daniel Bueno


"E il naufragar m'?dolce in questo mare".

Leopardi

Como, dentro do mar, libérrimos, os polvos
No líquido luar tateiam a coisa a vir
Assim, dentro do ar, meus lentos dedos loucos
Passeiam no teu corpo a te buscar-te a ti.

És a princípio doce plasma submarino
Flutuando ao sabor de súbitas correntes
Frias e quentes, substância estranha e íntima
De teor irreal e tato transparente.

Depois teu seio ?a infância, duna mansa
Cheia de alísios, marco espectral do istmo
Onde, a nudez vestida s?de lua branca
Eu ia mergulhar minha face j?triste.

Nele soterro a mão como a cravei criança
Noutro seio de que me lembro, também pleno...
Mas não sei...  o ímpeto deste ?doido e espanta
O outro me dava vida, este me mete medo.


Toco uma a uma as doces glândulas em feixes
Com a sensação que tinha ao mergulhar os dedos
Na massa cintilante e convulsa de peixes
Retiradas ao mar nas grandes redes pensas.

E ponho-me a cismar... - mulher, como te expandes!
Que imensa és tu! maior que o mar, maior que a infância!
De coordenadas tais e horizontes tão grandes
Que assim imersa em amor és uma Atlântida!

Vem-me a vontade de matar em ti toda a poesia
Tenho-te em garra; olhas-me apenas; e ouço
No tato acelerar-se-me o sangue, na arritmia
Que faz meu corpo vil querer teu corpo moço.

E te amo, e te amo, e te amo, e te amo
Como o bicho feroz ama, a morder, a fêmea
Como o mar ao penhasco onde se atira insano
E onde a bramir se aplaca e a que retorna sempre.

Tenho-te e dou-me a ti válido e indissolúvel
Buscando a cada vez, entre tudo o que enerva
O imo do teu ser, o vórtice absoluto
Onde possa colher a grande flor da treva.

Amo-te os longos pés, ainda infantis e lentos
Na tua criação; amo-te as hastes tenras
Que sobem em suaves espirais adolescentes
E infinitas, de toque exato e frêmito.

Amo-te os braços juvenis que abraçam
Confiantes meu criminoso desvario
E as desveladas mãos, as mãos multiplicantes
Que em cardume acompanham o meu nadar sombrio.

Amo-te o colo pleno, onda de pluma e âmbar
Onda lenta e sozinha onde se exaure o mar
E onde ?bom mergulhar at?romper-me o sangue
E me afogar de amor e chorar e chorar.

Amo-te os grandes olhos sobre-humanos
Nos quais, mergulhador, sondo a escura voragem
Na ânsia de descobrir, nos mais fundos arcanos
Sob o oceano, oceanos; e além, a minha imagem.

Por isso - isso e ainda mais que a poesia não ousa
Quando depois de muito mar, de muito amor
Emergindo de ti, ah, que silêncio pousa...
Ah, que tristeza cai sobre o mergulhador!


O texto acima foi extraído do livro "O Mergulhador", Edição do Atelier de Arte, Rio de Janeiro, 1968, pág. 77, exemplar n.?148, com poemas de Vinícius de Moraes e fotografias de Pedro de Moraes (seu filho). Tiragem limitada a 2.000 exemplares, numerados e assinados pelos autores.

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Ilustração: Daniel Bueno

Daniel Bueno (1974) ?formado na FAU-USP e atua como designer gráfico e ilustrador. Vencedor do Salão Internacional de Desenho para a Imprensa de Porto Alegre na categoria ilustração editorial (2003), expôs recentemente na Espanha – Madrid e Barcelona –, e na Society of Illustrators de Nova York. ?membro da SIB – Sociedade dos Ilustradores do Brasil – e faz mestrado na FAU-USP em História da Arte e Arquitetura.

E-MAIL: buenozine@yahoo.com.br

PARA CONHECER MELHOR O ILUSTRADOR, LEIA:
Papel, cola e Photoshop - Breve histórico de um ilustrador.

 

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