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Arnaldo Nogueira Jr





Eu estava a almoçar sozinho num restaurante, como tanto gosto de fazer, a meio do dia de trabalho. Detesto «almoços de trabalho», almoços de circunstância ou almoços de coisa alguma. Detesto almoçar os outros, resumindo. Prefiro almoçar a comida, acompanhada de uma revista ou de um jornal.

O restaurante era pouco mais que uma tasquinha de Alcântara, que tem a vantagem de ter uma comida caseira e sem pretensões e de não ser frequentado pela classe emergente dos almoços, com os telemóveis em cima da mesa, ao alcance de uma urgência, porque gente importante e ocupada é assim. Este restaurante, pelo contrário, é frequentado por uns clientes discretos, habituais e silenciosos, que vêm comer polvo cozido com todos e parecem cobertos por uma fina poeira de tristeza que os toma, de certa forma, íntimos. Íntimos, apesar do nosso mútuo silêncio, cúmplices na solidão das mesas, como marinheiros naufragados, cada um em sua ilha.

Gosto destes personagens lisboetas da hora de almoço, que comem sozinhos resmungando entre dentes, que compram lotaria, lêem os anúncios do Correio da Manhã e tratam as empregadas de mesa por «Menina isto» e «Menina aquilo». Imagino em cada um deles um Fernando Pessoa, órfão de obra e deserdado de sentimentos. São solitários e tristes, porém não são trôpegos, mas dignos, de costas direitas e cara fechada olhando em frente, quando se levantam da mesa discretamente em direcção à porta, como se deslizassem em direcção à vida.

Um dia entrou um homem destes, que eu já tinha visto anteriormente. Era um cliente de bairro, um «vizinho» do restaurante — ocasionalmente almoça, mas, regra geral, limita-se a chegar sobre o tarde, senta-se numa mesa em frente à porta com um jornal dobrado à frente, encomenda uma bica e fica a olhar para a rua, atento ao passar do tempo. Vê-se que é reformado porque não tem horário fixo nem pressa alguma. Não será viúvo, mas apenas gasto, viverá num 3° esquerdo, indiferente às lamúrias da «patroa», sentado num sofá de costas para a janela para receber a luz para as palavras cruzadas do jornal.

Mas nesse dia o homem entrou no restaurante com um sorriso luminoso na cara. Parecia ter rejuvenescido dez anos, as costas estavam mais direitas, a roupa mais alisada, o cabelo penteado deveria cheirar a água de colónia Ach. Brito. Só percebi a razão da transformação quando o vi virar-se para trás na porta da entrada e estender a mão a um miúdo que o seguia: era o neto. Passeou o miúdo pelo restaurante como se apresentasse uma namorada rainha de beleza. De mão dada com ele, foi até ao balcão e sentou-o lá em cima para que todos os empregados o vissem, sorriu à volta e fez um gesto largo para o miúdo, indicando o mostruário onde repousavam a pescada para cozer ou fritar, o leitão frio ou quente da Mealhada e as costeletas de vitela para grelhar, e disse: «Então, escolhe lá o que queres almoçar».

Pediu mesa com toalha de pano, encostada à parede, de onde todos o pudessem ver e ele pudesse ver todos. Levou o neto ao colo até à mesa, sentou-o na cadeira, atou-lhe o guardanapo de pano ao pescoço e então o miúdo agarrou-lhe a cara de repente, puxou-o para si e deu-lhe um beijo. O velho sentou-se à frente dele e olhou em frente. Encontrou o meu olhar, que devorava a cena. Por um brevíssimo instante pareceu-me que ele tinha ficado suspenso da minha reacção: queria ser visto, mas tinha medo. Inclinei a cabeça e cumprimentei-o em silêncio — foi a primeira vez que o cumprimentei: o seu olhar era líquido de ternura e firme de orgulho. Quando for velho, quero ser exactamente assim.


(Foi mantida a grafia original)


Texto extraído do livro “Não te deixarei morrer, David Crockett”, Editora Nova Fronteira – Rio de Janeiro, 2005, pág. 99.

Outros textos e dados biográficos de Miguel Souza Tavares: aqui.

 

Ilustração: Orlando Pedroso

Orlando Pedroso nasceu na capital paulista em 14 de fevereiro de 1959. Em 1978, publica pela primeira vez, já na época da abertura política, no jornal esquerdista "Em Tempo". Morou na Europa por três anos e meio.

Ilustrador e artista gráfico, colabora com o jornal Folha de São Paulo desde 1985 e com publicações da grande imprensa como "Veja", "Vip", "Você S/A", além de ilustrações e capas para editoras, como a "Moderna", "Ática", "Senac", "Global", "Nova Cultural", "Ediouro" e "Salamandra".

É co-autor do "Livro dos Segundos Socorros" dos Doutores da Alegria, além de ser responsável pela criação de suas peças de comunicação.

Em 1997 expôs nos espaços Unibanco de Cinema de São Paulo e Rio de Janeiro os desenhos de "Como o diabo gosta" e em 2001, no espaço Ophicina, em São Paulo, "Olha o passarinho!". Em 2002, organiza o livro “Dez na área, um na banheira e ninguém no gol”, lançado pela editora Via Lettera.

Em 2006 lança o livro "Moças finas", com 84 desenhos inéditos.

Em 2007, traz 28 desenhos inéditos para a galeria Calligraphia, em São Paulo, na exposição “Uns desenhos” e 37 na “Ôtros desenhos”, como mostra paralela do Salão de Humor de Piracicaba. Ainda em 2007, foi o artista homenageado no FIQ – Festival Internacional de Quadrinhos de Belo Horizonte (MG).

Recebeu o Prêmio HQMIX de melhor ilustrador de 2001, 2005 e 2006. Foi presidente do 16º e 17º HQMIX em 2003 e 2004. Faz parte do conselho da SIB - Sociedade dos Ilustradores do Brasil.

E-MAIL: orla@uol.com.br

 

 

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