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Inácio Rebelo de Andrade

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O Cacimbo e a estação das chuvas


Inácio Rebelo de Andrade


Todos os anos era assim: o Cacimbo chegava em Maio e ia até ao fim de Agosto. Eram quatro meses e meio que não deixavam saudades, porque tudo o que tinha vida (as pessoas, os animais e as plantas) parecia ficar suspenso, como que à espera de recomeçar.

A mil e setecentos metros de altitude, Nova Lisboa evidenciava especialmente os efeitos desse período: as madrugadas frias de enregelar os ossos, o céu limpo de nuvens, o ar seco que soprava por todo o lado.

Junho era o mês pior. Do solo nu que abundava ainda por muitos sítios, a poeira subia e tomava conta das ruas, entrava em casa pelas frinchas das portas e das janelas, deixava a sua marca nas superfícies dos móveis.

Quem viera do Minho ou do Algarve, de Trás-os-Montes ou do Alentejo, dizia que o Inverno tinha chegado. Mas à parte as madrugadas frias, a comparação devia-se apenas à saudade trazida da terra natal, porque a limpeza do céu, a secura do ar, a poeira que subia do solo e tomava conta das ruas não aconteciam de facto em Portugal naquela estação.

Depois de Junho, Julho; depois de Julho, Agosto; depois de Agosto, Setembro.

Em Setembro, o tempo mudava: as madrugadas não eram mais frias, o ar não era mais seco, o céu cobria-se de nuvens densas e cinzentas, a poeira assentava. Cada dia mais elevada, a temperatura subia, até que numa manhã (ou numa tarde, ou numa noite), quase de repente, de um minuto para o outro, relâmpagos aos ziguezagues e trovões ribombantes traziam consigo a primeira chuva.

A água caía em bátega, como que despejada lá de cima de um alguidar imenso: alagava tudo (os quintais, os jardins, as ruas, os passeios); a caminho das valetas, avançava em cachão, veloz e rumorosa. Envolta em espuma, arras-tava no percurso o lixo depositado.

Outra vez de repente, também de um minuto para o outro, a chuva parava: tão depressa vinha, tão depressa ia.

Mas depois... Ah!, mas depois..., depois deixava no ar um cheiro a terra húmida, que entrava nas narinas e despertava nas pessoas lembranças adormecidas; um cheiro que se sentia uma vez e não se esquecia mais; um cheiro forte, bom, promissor, de reinício; um cheiro de capim verde quase a brotar.

Para além dos limites da cidade, lá para os lados da Sacaála, do Cambiote ou da Quissala, à beira da estrada, esse cheiro mandava as mulheres espalmar os filhos nas costas, pegar nos cabos em V do etemo, dobrar os rins na lavra horas a fio, armar as bipangas e semear o milho.

Depois de Setembro, Outubro; depois de Outubro, Novembro; depois de Novembro, os meses seguintes até Abril.

Depois de Abril, Maio: o Cacimbo estava aí outra vez.

Depois Junho, Julho, Agosto e Setembro: a chuva de novo, o cheiro a terra húmida (tão forte, tão bom, tão promissor, tão de reinício como no ano anterior), o cheiro de capim verde quase a brotar.

(Publicada com a grafia original).


Inácio Rebelo de Andrade
nasceu em Huambo, em Angola, do dia 25/09/1935. Professor Catedrático Aposentado da Universidade Losófona, é licenciado em Agronomia pela Universidade de Luanda, Doutorado em Engenharia Agronômica pela Universidade Técnica de Lisboa e Agregado em Difusão  em Inovações Agrícolas e Extensão Rural pela Universidade de Évora. Iniciou sua atividade docente na Universidade de Luanda. Exerceu o magistério em diversas universidades de seu país e, também, do Brasil, na Escola Superior de Agricultura "Luis de Queiroz", em Piracicaba (SP). Na década  de 1960, esteve muito ligado aos movimentos literários angolanos, fundando com o poeta Ernesto Lara Filho a "Coleção Bailundo". É membro da União dos Escritores Angolanos e da Associação Portuguesa de Escritores.

Algumas obras do escritor:

- Saudade do Huambo (para uma evocação do poeta Ernesto Lara Filho e da Coleção Bailundo).
- Quando o Huambo era Nova Lisboa.
- O sabor doce das nêsperas amargas.
- Aconteceu em agosto.
- Na babugem do êxodo.
- As mulatas do engenheiro.
- Os pecados do diabo e as virtudes de Deus.
- O pecado maior de Abel.


Texto extraído do livro "Quando o Huambo Era Nova Lisboa". Ed. Vega - Lisboa, 1998 (Coleção "Palavra Africana).


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