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Arnaldo Nogueira Jr



José Eduardo Agualusa
Foto: Jorge Simão

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Último texto

(Félix Ventura começa a escrever um diário)
O vendedor de passados


José Eduardo Agualusa



Encontrei esta manha Eulálio morto. Pobre Eulálio. Estava caído aos pés da minha cama, com um enorme escorpião, um bicho horrível, também morto, preso entre os dentes. Morreu em combate, como um bravo, ele que não se achava corajoso. Enterrei-o no quintal, amortalhado num lenço de seda, um dos meus melhores lenços, junto ao tronco do abacateiro. Escolhi a face do abacateiro voltada para poente, úmida, coberta de musgo, porque ali faz sempre sombra. Eulálio, como eu, não apreciava o sol. Vai fazer-me falta. Decidi começar a escrever este diário, hoje mesmo, para persistir na ilusão de que alguém me escuta. Nunca mais terei um ouvinte como ele. Acho que era o meu melhor amigo. Deixarei, suponho, de o encontrar em sonhos. A memória que me resta dele, aliás, parece-se cada vez mais, a cada hora que passa, com uma construção de areia. A memória de um sonho. Talvez eu o tenha sonhado inteiramente — a ele, a José Buchmann, a Edmundo Barata dos Reis. Não me atrevo a escavar o quintal, junto à buganvília, porque me aterroriza a possibilidade de não encontrar nada. A Ângela Lúcia, se a sonhei, sonhei-a muito bem. Os postais que me continua a enviar, um a cada três ou quatro dias, são quase reais. Comprei na Altair, através da Internet, um imenso mapa do mundo. A loja da Altair em Barcelona é a minha livraria preferida. Sempre que vou a Barcelona guardo dois ou três dias para me perder na Altair, a consultar livros e mapas, álbuns de fotografias, a planear as viagens que farei um dia; a planear principalmente aquelas viagens que nunca farei. Pendurei o mapa na parede da sala, preso a uma placa de corticite, ao lado das polaróides de Ângela Lúcia. Todos os postais trazem uma nota mencionando o local onde a imagem foi recolhida e assim posso facilmente acompanhar o percurso dela (espetei em cada localidade um alfinete de cabeça verde). Vejo que Ângela desceu o Amazonas até Belém do Pará. Calculo que tenha depois alugado um carro, ou, parece-me o mais provável, apanhado um ônibus, em direção ao Sul. Enviou-me de São Luís do Maranhão a silhueta em chamas de um peque no barco com uma vela quadrada: Rio Anil, nove de fevereiro. Quatro dias depois chegou-me a imagem de uma mão de   criança lançando um avião de papel. Um rio desliza ao fundo, gordo e pardo sob o lento sol: Ilhas Canárias, Delta do Parnaíba, treze de fevereiro frete de fevereiro. Não me é difícil imaginar o caminho que tomará nos próximos dias. Comprei ontem um bilhete para o Rio de Janeiro. Voarei depois de amanhã do aeroporto Santos Dumont para Fortaleza. Creio que não me vai ser difícil dar com ela. Se José Buchmann conseguiu encontrar um patrício, um acorrentado, dentro de uma cabina telefônica, em Berlim, tendo por única referência um semáforo, mais rapidamente eu encontrarei uma mulher que gosta de fotografar nuvens. Não sei o que farei quando a encontrar. Espero que tu, meu bom Eulálio, onde quer que estejas, me ajudes a tomar a decisão correta. Sou animista. Sempre fui, mas só há pouco isso me ocorreu. Passa-se com a alma algo semelhante ao que acontece à água: flui. Hoje está um rio. Amanhã estará mar. A água toma a forma do recipiente. Dentro de uma garrafa parece uma garrafa. Porém, não é uma garrafa. Eulálio será sempre Eulálio, quer encarne (em carne), quer em peixe. Vem-me memória a imagem a preto e branco de Martin Luther King discursando à multidão: eu tive um sonho. Ele deveria ter dito antes: eu fiz um sonho. Há alguma diferença, pensando bem, entre ter um sonho ou fazer um sonho.

Eu fiz um sonho.

Lisboa, 13 de fevereiro de 2004


José Eduardo Agualusa
(13/12/1960) é natural de Huambo, Angola. Estudou Silvicultura e Agronomia em Lisboa, Portugal. Sua família é portuguesa pelo lado paterno e brasileira pelo lado materno. Casado, pai de dois filhos, seus livros são sucesso de vendas na língua de origem e são traduzidos em diversos idiomas. É jornalista e divide seu tempo entre Luanda, Lisboa e viagens ao Brasil. Seu romance, "O vendedor de passados", foi agraciado com o Prêmio de Ficção Estrangeira concedido anualmente pelo jornal inglês "The Independent", em 2007.

Alguns de seus trabalhos:


A conjuntura

Coração dos bosques

Lisboa africana

Manual prático de levitação*

Nação crioula*

Estação das chuvas*

Um estranho em Goa*

O ano em que Zumbi tomou o Rio*

O vendedor de passados*

*Os livros assinalados fazem parte da Coleção Identidade, da Gryphus Editora, que tem como objetivo divulgar no Brasil as literaturas de todo o vasto espaço onde se fala a nossa língua.


Texto extraído do livro “O vendedor de passados”, Gryphus Editora – Rio de Janeiro, 2004, pág. 197.

 

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