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Arnaldo Nogueira Jr



Mario de Sá-Carneiro

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Quasi

Mario de Sá-Carneiro




Um pouco mais de sol--eu era brasa,
Um pouco mais de asul--eu era àlem.
Para atingir, faltou-me um golpe d'asa...
Se ao menos eu permanecesse àquem...

Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num baixo mar enganador d'espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho--ó dôr!--quasi vivido...

Quasi o amor, quasi o triunfo e a chama,
Quasi o principio e o fim--quasi a expansão...
Mas na minh'alma tudo se derrama...
Emtanto nada foi só ilusão!

De tudo houve um começo... e tudo errou...
--Ai a dôr de ser-quasi, dôr sem fim...--
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou...

Momentos d'alma que desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ansias que foram mas que não fixei...

Se me vagueio, encontro só indicios...
Ogivas para o sol--vejo-as cerradas;
E mãos d'heroi, sem fé, acobardadas,
Poseram grades sobre os precipicios...

Num impeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...

Um pouco mais de sol--e fôra brasa,
Um pouco mais de asul--e fora àlem.
Para atingir, faltou-me um golpe d'asa...
Se ao menos eu permanecesse àquem...


Paris 1913--maio 13

Nota do Editor: Foi mantida a grafia original.


"Poeta e prosador português (19/5/1890-26/4/1916), considerado um dos mais originais e complicados autores do Movimento Modernista Português. Mario de Sá-Carneiro é o poeta que encarna as frustrações e os pesadelos de sua terra no início deste século, um país dividido entre a glória passada e a atração pela modernidade e pelas luzes da renovação europeia. Isso é traduzido em sua obra por meio de uma linguagem de extrema violência verbal. Sá-Carneiro nasce na cidade de Lisboa e estuda na Universidade de Sorbonne, em Paris. Publica os primeiros poemas, Dispersão, em 1914, mesmo ano da novela A Confissão de Lúcio. Retorna a Portugal em 1915 e lança a revista Orpheu em parceria com Fernando Pessoa, seu mentor e a maior expressão do Modernismo naquele país.

De volta a Paris, Sá-Carneiro passa por uma crise moral e financeira que o faz abandonar os estudos. De relações rompidas com o pai, leva uma vida de boêmia literária. Em 1916, durante uma crise, suicida-se em Paris. Antes de sua morte envia seus poemas inéditos a Fernando Pessoa, publicados apenas em 1937 sob o título Indícios de Ouro."


(Resumo biográfico obtido no site
www.algosobre.com.br)


Poema extraído do livro Dispersão - 12 poesias. Edição do autor; Lisboa, 1914, publicado no site Gutenberg.Org.

 

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