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Arnaldo Nogueira Jr



Edigles Bezerra Guedes nasceu em 08/01/1976, em Recife, Pernambuco – Brasil. Desde os 14 anos, quando estava no Colégio de Aplicação da UFPE, cursando a 8.ª Série do 1.º Grau, escreve poesias, cultivando entre outras formas, o soneto. É com prazer inenarrável que rememora a sua professora Kátia Bento, quem lhe incentivou. Cursou, entre os anos de 1991 a 1993, a Escola Técnica Federal de Pernambuco, onde se formou em Auxiliar Técnico em Eletrônica. Atualmente, publica os seus trabalhos em diversos meios de divulgação locais.


A esfinge

Edigles Guedes



Era quinta-feira, eu estava meio comovido com tudo que houvera; ainda assim, procurei seguir a rotina do dia a dia; de tal forma que, agora, pendurava-me na cigarra do ônibus. O motorista — um homem de meia idade, cabelos grisalhos, magro, da cor do chão — atendeu ao meu pedido, brecando o automóvel. Desci atabalhoadamente e entrei na sala de aula do cursinho de inglês.

Uma sala comum, em que o condicionador de ar fazia um barulho típico de carro de boi ou de jumento, quando não arreda o pé para lugar algum; defronte a esse eletrodoméstico havia uma mesa de escritório, que era usada pela professora; no espaço restante, entre o condicionador de ar e a mesa de escritório, umas vinte cadeiras para os alunos; e, também, um quadro branco, que, de vez em quando, a professora utilizava-o com um pincel atômico, para escrever, e uma esponja, embebida no álcool, para apagar seus escritos.

Gertrudes — esse é o nome da professora — era uma mulher com seus quarenta e dois anos bem vividos; embora, pela prática constante de hidroginástica e aulas de musculação, possuísse um corpo de causar inveja a qualquer garota de vinte e poucos anos. O seu corpo tinha um efeito colateral no público masculino: quando ela caminhava com sua saia justa e blusinha estampada pelos corredores do cursinho, todos, sem exceção, olhavam-na discretamente com o rabo do olho.

Ela não era cega, e na sua casa havia no mínimo um espelho; pois, toda mulher, por natureza própria, há de ser vaidosa, e consulta o espelho psicanalista ao menos três vezes ao dia. Primeiro, é óbvio, ao acordar com os cabelos desgrenhados; a vaidade dos cabelos fala mais alto do que a vaidade de sua pele cremosa, cheia de cosméticos — qualquer mulher que se preze passa uma hora ou uma hora e meia no cabeleireiro. Segundo, no almoço, com a escusa de retocar o toalete, como uma flecha que se atira ao alvo, apruma-se o seu cabelo, completa-se a maquiagem defronte ao primeiro espelho que encontrar, pode ser um espelho dentro da pior espelunca que já se viu; elas não querem saber, olham para o seu umbigo e falam ao espelho: — Espelho, espelho meu, existe alguém mais bela do que eu? e caso o espelho diga que a Gisele é mais linda do que a Gertrudes, incontinenti, ela lança o espelho ao chão; porquanto prefere sete anos de azar a encomendar uma crítica à sua beleza exterior. Terceiro, à noite, para engambelar o estúpido marido, e passar a mão no bolso dele, no intuito de, única e exclusivamente, pechinchar o preço aos ouvidos dos vendedores de produtos de estética feminina.

Como de costume, sentei-me na cadeira da frente; e, face a face, olhei-a com meus olhos em riste. Eu encarei-a a vera, pois ela desmanchava-se como doce de leite dentro de seu vestido colante. Por um ápice, eu sonhei acordado; pensei que estava colado àquele corpo violão. Já faz dias que eu invejava a sorte de seu vestido, imaginava-me saindo de lá para cá, tatuado no corpo de Gertrudes; depois, passei a invejar também a fortuna de sua pele, e almejava devorá-la literalmente. Eu supunha que amar significava desejar tanto a pessoa amada, e desejar tantas bem-aventuranças, que para não se perder ou estragar o amor, era de bom alvitre que a gente carregasse o amor de nossas vidas em nosso ventre; talvez, por isso, as mulheres se apeguem sobremaneira a seus filhos. Contudo, o que, a princípio, era só um pensamento fugaz, desses sem cabeça ou pernas, foi-se tornando um desejo intenso e maduro.

Antes de vir ao cursinho, eu estava em casa, no meu quarto, estudando para o vestibular, quando mamãe me flagrou absorto, ruminando essa idéia; e indagou-me:

— Édipo, meu filho, o que é que estás fazendo com a cara para cima?

Após um susto daqueles, eu endireitei-me na cadeira, e respondi de imediato:

— Nada, mamãe — disse manipulando o lápis de grafite entre os dedos, e fitando um problema de equação bi quadrática.

— Então, vá tomar café! que hoje já basta — falou, fingindo acreditar na minha resposta.

Para mim, foi o mesmo que dizer ao prisioneiro, o seu alvará de soltura foi entregue ao carcereiro; era justamente assim que eu me sentia, ao ser obrigado a estudar seis a oito horas por dia: um prisioneiro! Quantos sacrifícios para conseguir um canudo, com o diploma, e um chapéu de universitário, ao cabo de quatro anos de estudos! E, ao final de sua vida, tornar-se apenas mais um homem frustrado com o estresse cotidiano das grandes cidades. De fato, eu não entendia essa lógica dos adultos, que procuravam nas Universidades a sua própria ruína intelectual; cá comigo, eu dizia que seria diferente, que eu iria cursar o curso dos meus sonhos; no entanto, o tiro saiu pela culatra. Acabei inscrevendo-me num curso de engenharia, só para satisfazer os anseios da minha família.

Por que eu mentiria para minha mãe, asseverando-lhe que nada havia? se, realmente, o meu coração estava aos prantos de fome pela professora. Não obstante, isso seria algo um tanto quanto descabido. Como é que se diz simplesmente à mãe:

— Querida mãezinha, eu estou querendo devorar a professora de inglês!

Com toda sua pachorra, porém, ela espinafrava:

— Ora, quem já se viu tamanho estrupício!… Não falte ao respeito com a sua mãe, seu moleque!…

Daí em diante, até o momento em que eu conseguisse convencê-la de que se tratava de jantar a professora à milanesa, quanto tempo e infortúnios isso me custaria! Não, dizer-lhe a verdade estava irremediavelmente fora de cogitação, pensei com os meus botões.

Ou rosto a rosto, ou nariz a nariz, a Gertrudes sentou-se à minha frente na mesa que lhe servia de secretaria e cruzou as pernas, as quais automaticamente levantavam o seu vestido justo. Eu não via as suas pernas explicitamente, posto que a meia-calça cobria-as zelosamente; contudo, caso visse-as, eu tenho certeza que já não me controlaria, e esse ímpeto eclodiria sem remédio ou panacéia.

Não por mim, mas sim pelos outros, suas indagações de cão policial cercavam-me; eu precisava de um placebo. Eu precisava de alguma possibilidade de cura, ainda que fosse enganosa.

Nisto, eu recebi discretamente por meio do meu celular a triste notícia que minha mãe se suicidara; e sabe quem se incumbiu de tal notícia? A minha tia Jocasta. Aquilo foi um choque tremendo em minhas perspectivas interiores; pois, a minha mãe deixara uma carta em que me repreendia por não lhe ter aberto o meu coração, e fazia tácita referência ao episódio em que me vira caminhando pelas nuvens, até cair de lá. É evidente que minha mãe exagerava, eu mesmo preferiria cair do terceiro andar a cair das nuvens; embora se elas fossem de algodão doce seria um caso a se pensar.

Guardei o luto por um mês, como manda o manual de boas maneiras; fui morar com minha tia Jocasta, enquanto ela resolvia a papelada da herança no cartório e dava entrada na pensão. Ah! se eu chorei a morte de minha mãe? Qual é o filho que não chora a partida de um ente querido? Diga-me: quem não chora? Todavia, aquela sensação de comer, de devorar medrava em mim, uma vez que eu desejava comer as carnes pútridas de minha mãe morta. Por acaso, eu sou algum chacal ou ave de rapina, tal qual urubu, para o meu estômago desejar um jantar ou almoço de carniça?

Era setembro e eu já não me agüentava ao ver Gertrudes nos trinques.

Certa noite, eu convidei-a para sair comigo. De posse da herança, eu havia comprado um carro conversível, o qual exibia a todos do cursinho. Enfim, era a minha vez de jogar um charminho encima da professora, foi aí que surgiu a idéia do convite para jantar; ela nem sequer piscou o olhou ou pensou duas vezes: de imediato, aceitou-o.

No restaurante, nós degustamos alguns frutos do mar. A noite estava perfeita; à luz de velas, nós nos refestelamos. O garçom — um homenzinho com um metro e cinquenta e três centímetros de comprimento — demorou-se para entregar-nos a conta.

Gertrudes estava encantadora. Ela olhou atentamente para mim, à medida que o meu apetite voraz por ela crescia. Seus olhos despiam-me da cabeça aos pés. Quiçá, também, quisesse me devorar. Após lauta refeição, fomos juntos à beira-mar. E, à luz da lua, que fulgia porque fulgia, eu devorei-a carne por carne, osso por osso. Aliás, quanto mais eu abocanhava e mastigava a Gertrudes, tanto mais eufórica e insana ela gritava para eu lhe devorar a carne. Logo que eu palitei os dentes, um pedaço de Gertrudes pulou da minha boca, e ela disse-me:

— Meu amor, tu não queres comer mais um pedaço de mim!…

Com efeito, eu assustei-me e perguntei:

— Gertrudes, o que foi que te aconteceu? Pois, eu sei que te comi o corpo todinho.

Ela olhou-me, com os olhos esbugalhados, e retrucou:

— Ora, ora!… Tu não me comeste, apenas me decifraste. Tu tens a chave para o enigma da mulher que sou.

Por ora em diante, eu já não me chamaria de Édipo; mas sim, de Esfinge.


E-Mail: edigles.guedes@gmail.com

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