O coração morto
Fabio Bocchi
Hoje, noticiaram uma coisa deveras interessante: Morreu um coração!
O seu dono permaneceu em pé, mas o coração simplesmente morreu.
Intrigando legistas, cardiologistas e toda uma junta médica, um
homem foi se examinar.
O coração parecia normal. Sem câncer, entupimento, mancha ou
ventrículo trocado. Ele simplesmente parou. Foram feitos uma bateria
enorme de exames, todos os dias, durantes meses, com todos fluídos
possíveis e imagináveis do corpo humano. Depois de muito tentar a
junta médica — de todos especialistas renomados do mundo- deixou o
peito aberto, o coração exposto ao vento e perigos de infecção.
Entretanto, não importava, já que havia morrido.
Depois de muito procurar ajuda — psicanálise homeopatia cirurgia
cardiovascular desfibrilador macumba despacho Exu Ogum Diana
Hércules Prozac e Lamivudina — o dono desse coração resolveu
deixá-lo aberto à exposição, e tornou-se peça de um museu de
horrores — pois era um corpo com fluxo normal e coração parado.
Pessoas vinham de todo canto do mundo, cada uma contendo a
explicação e ninguém conseguia fazer aquele coração voltar. Vieram
Pajens, Xamãs, o Papa, Inri Cristo, David Cooperfield, Blaine, magos
com seus raios, trovões e poções! E nada disso acordava o empedrado
coração.
Um dia, uma mulher quis tocá-lo. Uma pobre camponesa do Quênia, que
havia vindo com seu Xamã pai, intercedeu pelo coração com um toque
de indicador. O coração pareceu ter uma gota de cor diferente
daquela cinzenta. Intrigado com a mudança, todos os que haviam
passado pelo local, e o próprio dono que já adormecera há tempos,
viraram sua atenção para a gota: ela parecia se expandir e começou a
cobrir a superfície daquela pobre pedra, que um dia batera.
Aquela gota começou a expandir e buscar laterais, superfícies.
Médicos do mundo inteiro correram para o local, intrigados com
aquela melhora. Realizaram todos os procedimentos para a melhora do
homem, e ficaram a segurar a pobre camponesa com suas mil perguntas,
exames, máscaras anti-germes, lenços desinfetados e todas as
armadilhas da ciência moderna.
Depois de estabilizado, saudável e caminhando, o homem que viveu no
perjúrio da frieza encontrou com quem lhe devolveu a vida: ela
estava numa sala para estudos, com tubos, sondas, agulhas, soníferos
e todo tipo de relaxante. Ao vê-la, o homem começou a chorar, e não
sabia o que fazer além de perguntar o que havia ocorrido.
Muito fraca, a pobre camponesa simplesmente respondeu: “Eu o amei!
Por um segundo infinito, amei sua dureza.” E depois disso, dormiu.
Um sono eterno, coberto com um manto branco.
Na lápide, a família da camponesa colocou: “A que ressuscitou um
coração.”, e o homem — que já havia partido para os confins do mundo
— escreveu embaixo “E sou grato por isso”.
Fabio Lourensetti
Bocchi (1985) reside em Assis (SP), onde cursa o quarto ano de
Psicologia na UNESP. Escreve, nos diz, pelas emoções, separações,
diálogos inacabados e comunicações não verbais: elas são o canal de uma
vida onde todos têm pressa, pouca paciência, carência e pós modernidade
demais para valores pseudo corrompidos. Não tem trabalhos publicados.
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