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Arnaldo Nogueira Jr


Felipe Greco (1967) é gaúcho de Uruguaiana (RS). Reside em São Paulo desde 1985. Em 1991, venceu o concurso literário promovido pela Fiat do Brasil, com o conto "Anjo provisório". Em 2001, publicou o livro de contos "Caçadores Noturnos" (Desatino, SP); em 2003, "O coveiro, uma fábula marginal" (Desatino, SP); em 2004, um artigo em obra coletiva, "Getúlio Vargas, um político camaleônico", in "Política e conflitos internacionais" (Revan, RJ). Em 2005, inspirado em uma história real, escreveu "As aventuras de Lilika" (infantil, ainda inédito). Atualmente, está escrevendo um texto juvenil, "Memórias do asfalto". Convidado pelo editor-chefe da GMagazine (Fractal, SP), escreveu vários contos que foram publicados naquela revista. Para teatro, escreveu em 2005 "Um bolero no escuro" (inédito). Tem dois roteiros filmados: “Atração Satânica” (1987) e “The ritual of death” (1990).


O vazio e as sombras

Felipe Greco


Eu nem tinha dez anos e morava em Uruguaiana, interior do Rio Grande do Sul, quando brinquei pela primeira e última vez de médico com meu primo, quase dois anos mais velho. Começamos a explorar timidamente nossas braguilhas. Minha mãe escancarou a porta do quarto aos berros. Apanhei tanto, que a dor e o susto nunca mais me largaram. Ainda hoje tenho pesadelos com as pragas, os gritos e os murros na cara que levei.

Depois desse episódio, a velha esfriou comigo. Nunca mais veio ao meu quarto me dar o tradicional beijo de boa-noite na testa. A um só tempo crescia em seus olhos um brilho de ódio e de culpa. Seus gestos se tornaram mecânicos. Sua voz rasgava o ar e invadia meus tímpanos como dardos radioativos, punhais incandescentes, setas envenenadas.

Cresci sem saber o que eu havia feito de tão tenebroso, assim, capaz de ter despertado tamanha cólera naquela mulher. Vivíamos como duas víboras famintas trancafiadas na mesma toca.

Quando fiz dezoito anos, ela assinou minha emancipação e, sem rodeios, disse para eu seguir meu rumo, que tratasse de esquecer aquele endereço, ela, os parentes e todo o resto.

Dias depois, bem cedinho, recebi em dinheiro minha parte da suposta herança deixada pelo meu pai. Fiz as malas. E me mandei para Porto Alegre.

Aluguei um quartinho num hotel próximo à Praça da Redenção. No meio das minhas coisas, encontrei um pacote com retratos antigos e um bilhete. Nas fotos, um homem elegante, de corpo esguio e rosto com traços muito delicados: meu pai. No bilhete: “Não quero que te falte nada, Beatriz. Antes de partir, transferi todos os bens para o teu nome. Não me queiras mal. Sabes mais do que ninguém que tentei com todas as forças abafar esse meu desejo por outros iguais a mim. É inútil lutar contra as bússolas que norteiam nossa libido. Também não posso, nem quero mais viver escondido pelos cantos, acuado. Mereço e preciso tentar ser feliz do meu jeito. E se um dia o guri perguntar pelo pai, diga-lhe apenas que morri”.

Risquei um fósforo no escuro. Queimei tudo aquilo. Enchi de sombras dançarinas o que antes era apenas o vazio. Virei de lado. E fui adormecendo aos poucos.


E-Mail: felipe@desatino.com.br

 

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