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Arnaldo Nogueira Jr


Nívia Maria Vasconcellos nasceu em 1980 em Feira de Santana-BA. É especialista em Estudos Literários, tendo finalizado o mestrado em Literatura e Diversidade Cultural, ambos pela UEFS-BA. Publicou o livro de poesia “Invisibilidade” (MAC, 2002) e o livro de contos “... para não suicidar”(Littera, 2006). Ganhou o 7º Festival Vozes da Terra de Feira de Santana-BA, com a música “Soneto que não queria existir”. Logrou, em 2008, o Prêmio CDL de Literatura, que editou e lançou seu livro “Escondedouro do Amor e Outros Versos sob a Espera” (CDL, 2009). Além de poetisa e contista, é professora e integrante do grupo de declamação OsBocasDo Inferno.


Entre copos e xícaras

Nívia Maria Vasconcellos

à Maria Beloah, minha mãe



Na hora do almoço... num lar... instituiu-se a confusão: o guaraná existia, mas os copos, não! Todos avançaram sobre as xícaras — suplentes dos copos —, era anormal, diferente, inóspita para todos essa situação. Parecia que as xícaras não poderiam ser recipientes de guaraná. A elas caberia guardar chás ou cafés, jamais outros líquidos. Pai, mãe e filhos, à mesa, querendo engolir o guaraná, entretanto, para isso, tentavam esquecer que possuíam em suas mãos xícaras, não copos. Não sei se elas, as xícaras, satisfaziam-se com sua mais nova função; só sei que todos bebiam o guaraná de maneira equivocada, desigual... pareciam beber chá ou café, como se a missão das xícaras fosse mais forte do que o seu conteúdo. Até a maneira de segurá-la parecia interferir no sabor do líquido que invadia a boca daqueles que desejavam, simplesmente, tomar guaraná sem se importar com quaisquer outras coisas.

Era, realmente, incômoda, incoerente, inconveniente essa sensação. Todos, diante dos pratos repletos, entreolhavam-se como se comungassem do mesmo sentimento inexplicável de insatisfação. Não suportariam por mais tempo essa tortura de se tomar guaraná em xícara. A mãe, dona dos utensílios domésticos, passou a ser a única indiferente aos demais. Parecia não mais se importar com a insuportável situação, parecia acomodar-se a ela; apenas começou a reclamar que alguém teria que providenciar mais copos. O pai, principal atingido pela reclamação, e – tão incomodado quanto os filhos com as circunstâncias que interferiam no calmo, plácido, religioso almoço – olhou seus filhos com autoridade (um olhar só atribuído aos pais), ao passo que todos foram silenciando-se. Ele, desfazendo parte das dobras que tornavam mais sério o seu rosto, abriu a boca como quem sugere e indagou a sua esposa entre os dentes sujos de carne: Por que não utiliza os copos da cristaleira? Os filhos, num espanto, projetaram seus corpos para trás com a proposta do audacioso pai. Nenhum deles teria coragem de realizar tamanha sugestão, nenhum deles se ousaria tanto. Depois do susto, todos foram acometidos pela espera. O silêncio tomou todos os espaços, ouvia-se cada mastigar. As xícaras foram abandonadas, a possibilidade de substituí-las lançou uma leve alegria sobre todos (ou quase todos). Alegria que era escondida e não era compartilhada pela mãe. Pai e filhos fixaram sua atenção na esposa, na mãe. Ela era o centro: a decisão. A felicidade da casa dependia dela. A comida esfriava sobre o desprezo de todos e a mãe, meio conhecedora de seu poder, castigou marido e filhos com a sua demora.

Servia-se com um pouco mais de arroz, cortava vagarosamente a carne e mais devagar ainda a conduzia a sua boca. Mastigava e engolia lerdamente a comida que parecia enfrentar obstáculos para alcançar o estômago. Expectativa. Expectativa. A resposta:... Só temos esses copos da cristaleira! Se fossem quaisquer copos não estariam na cristaleira! — Silenciou-se — Se forem quebrados... Ficaremos sem copos; eles são tão bonitos lá... na cristaleira. O silêncio voltou a tomar conta da mesa. Pai e filhos aguardavam quase que desesperançosos a segurar garfos e facas, naquele momento, inúteis, até que ela:... não olhem para mim assim! Foram presentes... são caros. Não tendo mais nada a dizer, a mãe olhou para o seu prato como quem desvia e encheu o garfo retornando ao almoço.

Pai e filhos, silenciosos e cabisbaixos ouvintes, sabiam a resposta dela e ela, em verdade, nem proferiu uma resposta, apenas tentava justificá-la, sem muito sucesso. Nada! Nada de comunhão de bens: os copos pertenciam à mãe. Acatando, mesmo sem compreender a decisão, o veredicto que, de alguma forma, já era previsível, marido e rebentos também retornaram ao almoço. A mãe, ainda indiferente – uma indiferença querida a fim de não perceber ou fingir que não percebia a malevolidade de seu ato – comia e bebia como quem não se preocupa.

... Os copos continuaram na cristaleira por incontáveis anos, furtados da sua função de copos. Eram enfeites, objetos intocáveis, contemplados e admirados, mas inacessíveis. Os filhos cresceram e construíram famílias com mesas do almoço repletas de copos. O pai... já não tinha planos. A mãe, quando triste e abandonada, olhava para a cristaleira que lhe era lembrança. A cristaleira seguia incólume com seus copos, os únicos membros da família que ainda não sofreram as seqüelas inevitáveis do tempo...


E-mail:
niviamvasconcellos@yahoo.com.br

 

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