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Arnaldo Nogueira Jr


Roberto Márcio Pimenta  é formado e pós-graduado em Letras. Nasceu em Belo Horizonte – MG e desde os primeiros anos de estudo dedicou-se à Literatura. É detentor de vários títulos como vencedor de concursos de conto. Destacou-se entre escritores mineiros tendo como companheiros de Letras: Pe. Teófilo, Roberto Drummond, Oswaldo França Junior, Antônio Fonseca e outros. Tem contos publicados em vários jornais, revistas e sites como O Estado de São Paulo, Revista Petrobrás, Repórter Regap, TemploXV, Garganta da Serpente, Prefácio, Oficina do Pensamento, Clube de Letras, etc. Participou de várias antologias.


O enforcado

Roberto Márcio Pimenta


Meninos nus mergulhavam no rio, enquanto as lavadeiras, com suas saias amarradas entre as pernas, repetiam as mesmas canções de séculos passados e, naquele instante, não percebiam o cheiro que o vento trazia . Então, a mais sensível entre elas, interrompeu a cantiga e a lavação e disse:

“— Há um cheiro de perfume no ar”. Todas fizeram silêncio e concordaram balançando a cabeça e dizendo em coro:

“— Tem sim!”

“— E deve ser de morte, pois o odor é de rosas” — disse a mais velha delas.

E temendo que o fenômeno propagasse em suas mentes, chamaram seus homens para que elucidassem o enigma do cheiro, o que, para eles não passaria de uma simples averiguação de suas alucinações.

Em número de sete, armados de facões, sobre pernas decisivas, entraram pela mata e no esplendor da tarde, aos olhos dos homens de fé daquele lugar, diante da imagem dependurada na corda, balançando , com uma sombra no fundo duas vezes maior do que o corpo, prostraram de joelhos. Era um enforcado.

Fizeram o sinal da cruz e chamaram as pessoas daquela aldeia.

Levaram os anciões em fila para que tocassem no morto e um deles, o mais frágil, disse:

“— Não se encostem ao corpo! Ele quis enganar a paixão. Deve ter morrido por um grande amor, porque somente na morte é que se compreende um grande amor.” ao que o outro respondeu , com voz rouca e fraca, franzindo a testa e passando as mãos entre os cabelos brancos:

“— Não é isto! Ele não levou um coice da mula do amor. Simplesmente a vida estava de tocaia e ele caiu na armadilha . Deve ter sido assaltado.”

A mulher gorda que amamentava uma criança no colo, com a outra segurando a barra da sua saia, respondeu:

“— Olhem suas botas que o chão rejeita! Observem suas roupas, o anel na mão esquerda, seus longos cabelos aparados na ponta, seu físico de grande guerreiro... só pode ter sido alguém que morreu por uma grande causa”, o que foi motivo de alguém mais distante do local completar:

“— Pela nossa liberdade!” e todos aplaudiram dizendo “Foi sim”.

Uma criança tímida, com o polegar na boca, acompanhada de um cão, quis tocar o cadáver, mas impediram para não profanar o santo dependurado na corda. O cão latiu e o vento balançou o morto, fazendo com que as pessoas se afastassem para não tocar no corpo.

A mais beata das lavadeiras desfez o nó da saia, fechou a mão, persignou-se com o polegar, aproximou-se e, logo após, beijou suas botas.

Retiram-no da forca e deitaram-no sobre o solo. Perceberam, assim, que era um homem alto, com catadura da serenidade da paz, olhos verdes que avistaram guerras santas nas quais defendeu fracos e inocentes. Levaram o corpo, choraram pela sua morte e o sepultaram no chão da capela.

Meses depois os espanhóis chegaram à aldeia procurando o corpo de um homem que havia sido executado na floresta: era um bandido tão tenebroso que resolveram executá-lo ali mesmo temendo que a própria sorte desviasse o curso da sua execução no cadafalso.


E-Mail: robertomarciopimenta@yahoo.com.br

 

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