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© Projeto Releituras
Arnaldo Nogueira Jr


Teresa Mangabeira, 1969, baiana de Salvador, cidade dos mangabeiras João e Otávio, é formada em Direito pela Faculdade Cândido Mendes, com escritório de advocacia no Rio de Janeiro. Escreve nas horas vagas contos e romances, segundo ela para se distrair das enfadonhas petições forenses.


Queima de arquivo

Teresa  Mangabeira


João Evangelista, cearense de Russas, cidade na qual os viajantes comerciais diziam que Judas perdera as botas, 23 anos, alto, forte, claro, bem nutrido à base de leite de cabra, conhecido como Magaiver, aquele personagem da serie de filmes, que sabia tudo e tudo fazia e consertava, viera para o Rio tentar a sorte. Ainda sentia as palmadas que seu pai lhe dava na moleira em criança, como bom cearense que se preza, e tinha nos ouvidos ecoando como um tambor as repetidas palavras: — filho cresce, cresce logo, para ir para o Rio, ganhar a vida e enricar se possível honestamente?. Mal sabia que os cassinos estavam fechados e até a mega-sena acumulada era ganha por pessoas que ninguém sabe quem são e suspeitamente em lugares esquisitos, sendo inatingível o sonho de ficar rico. E ali estava ele na pior e num beco sem saída. O dinheiro que trouxera estava no fim e, já decorrido um ano, não encontrara um emprego. Os parentes em cuja casa morava não agüentavam mais aquela presença onírica, indo de um lado para outro sem nada a fazer. Embora tivesse alguma instrução, os empregadores ora achavam que não tinha prática, ora pediam referencias.

Naquela manhã radiante, em que o sol sufocava a baia de luz e realçava todos os encantos da princesinha do mar, com seus morros, pão de açúcar, Corcovado, João decidiu sair do subúrbio onde se malocava, e foi prosaicamente ao consultório do Dr. Afanásio, dentista da família, no centro do Rio de Janeiro, para tratar de uma constante dor de dente.

Na sala de espera apanhou, em cima de uma mesa com revistas, o jornal O DIA, distribuído de graça nos consultórios, porque, embora bastante lido pelo povão, não era muito procurado para anúncios.

Noticiava quase todas as ocorrências policiais e os eleitores mais elitizados ironizavam o jornal com o achincalhe de que se espremessem suas folhas saía sangue.

No entanto, um anúncio bordado lhe chamou a atenção: Empresa precisa de motorista profissional. Rua das Camélias, n. 39, das 8 as 16 horas.

Terminado o tratamento, como era pertinho, foi mesmo a pé procurar o tal endereço. Quando entrou na rua, achou esquisito, porque as lojas só vendiam flores, velas, fitinhas. Mesmo assim, caminhou e no nº 39 havia uma placa enorme com o nome — A Carioca Funerária — e em exposição caixões de todos os tipos, coroas e fitas. Chegara até ali, não ia recuar, esperaria o resultado. À porta se defrontou com um senhor gordinho, atarracado, que tinha aspecto de coveiro.

— É o dono?

— Sou, o que deseja?

— Vim pelo anuncio, sobre motorista.

— Apresente-me seus documentos.

Mostrou a carteira de motorista profissional do Nordeste, revalidada no Rio, o pagamento em dia do Instituto de Previdência e mentiu quanto ao local em que morava, que era distante, e bem sabia que não gostavam de empregados que morassem longe do trabalho pelos problemas criados com a condução. Incontinenti, o patrão gritou:

— Tião, vem cá.

Detrás de uma porta, por onde se amontoavam os caixões, saiu um pretinho retinto, de uns 19 anos.

— Pronto patrão, o que é?

— Entrega a chave da camionete para o moço e dá uma volta com ele até a igreja de Santa Luzia. Depois encosta aqui, pretende ser seu companheiro como motorista.

O pretinho pegou a chave e levou-o ao lado onde estavam os carros funerários. Não sabia dirigir, mas era ajudante há muitos anos. João deu a volta na chave do carro, saiu, obedeceu a ordem do pretinho, que, em certo momento, determinou que podia voltar.

— Já — disse João.

— Sim. Você dirige bem.

Quando chegaram, o agente funerário foi logo perguntando com certa ansiedade:

— Quê tal, Tião?

— Bom.

— Então, estás contratado, podes vir amanhã as 8 horas.

João Evangelista quis saber o salário, o anúncio não dizia, vindo a conhecer, sem surpresa, que era o mínimo, mas que era experiência e aumentaria depois. Essa conversa fiada ele ouvia de todos, mas o pretinho na saída animou falando que não se preocupasse com o salário, porque só de gorjetas numa semana ganharia mais de um mês.

João resolveu topar. Estava preocupado porque dera endereço errado, mas se houvesse alguma descoberta diria que mudara de domicilio. Estranhava a facilidade da admissão, talvez a maioria não gostasse de lidar com defuntos,  tinha sido a admissão mais fácil e rápida de sua vida.

O Pretinho tinha razão. João recebia muitas gorjetas gordas e parentes dos mortos pediam até para ele ir devagar para não balançar muito com o morto, como se morto desse bola para os vivos, e agradeciam com trocados. Em alguns casos, havia acompanhamento de enterros com carreata, o que custava muito caro, noutros, levavam o morto diretamente de casa para a capela indicada pelos familiares. E como rolava dinheiro. João chegou a comentar com Pretinho que o negócio é bom demais e brincava que ia montar um negócio assim. Os familiares — dizia com ironia — choram não pelos mortos, mas pela despesa que deixaram para pagar. É melhor que jogo de bicho. O Tião respondia, com sabedoria: —Falam à boca pequena que os banqueiros de bicho
são sócios. Tudo que é negócio bom está com eles.

Passados quinze dias, a casa funerária foi atender a um cliente importante do subúrbio de Olaria. João pegou o veículo com o ajudante e para lá dirigiu, com as coroas e demais objetos comprados e com um caríssimo e reluzente caixão. — A gruja hoje vai ser grande — prenunciava Tião.

Quando lá chegaram, ficaram admirados porque havia poucas pessoas carpindo o morto. Umas caras mal encaradas vieram ajudar atirar o caixão, umas mulheres foram contratadas para preparar o morto, ou seja, enfeitar o pavão — como diziam — colocaram as coroas, uma mulher nova, com um vestido de seda escuro, moldando sua silhueta, através de um véu soluçava.

João não gostava de presenciar a cena e esperava do lado de fora a vez de seguir com o carro. Quando disseram que estava pronto, ele e pretinho pularam para o local, colocaram com ajuda de outras pessoas o defunto.

Para um enterro tão caro, eram poucas mulheres e uns quatro homens, não mais, presentes. Um senhor que estava perto da viúva, com uma camisa espalhafatos e escura,pediu a João que seguisse rápido, porque já havia mau cheiro. A observação pareceu extemporânea, porque com aquele montão de flores só se sentia perfume. João entrou no veículo e na altura de Pilares, caminho certo para entregar o defunto na capela do cemitério de Inhaúma, Tião chamou a atenção do companheiro.

— Há um baticum lá atrás.

João, que era um gozador, disse que deveria ser o morto. Mas vamos ver. Ao afastarem as cortinas e tirarem as coroas, ouviram batida, levantaram a tampa e, para surpresa, o suposto defunto dizia: — Água, água, estou com sede. Pretinho quis correr. João segurou-o pelo braço e exclamou: — Ô apavorado, apanha no chão uma pedra para que o moribundo possa respirar e vamos avisar a alguém antes que ele morra de verdade por asfixia. Colocaram uma pedra entre a tampa e o caixão, deixando penetrar ar. Pretinho queria que fosse direto à capela, mas João achou melhor voltar à casa do homem que era mais perto para algum socorro.

O homenzinho da viúva correu para encontrá-los, mal avistou o carro funerário, parece até que estava esperando, e esbaforido perguntou:

— Que houve?

— O homem ressuscitou — falou João. Botamos uma pedra para ele respirar melhor entre a tampa e o caixão.

— Não façam isso — grunhia nervoso.

E correu para tirar a pedra. Na casa não havia mais ninguém, só ele e a viúva. Meteu a mão no bolso e o que pode apanhar de notas de 20 e 50 reais, sem contar, entregou ao João para dividir com o pretinho, implorando para levar rápido para o cemitério. Azulão entrou no veiculo e se mandou para o cemitério de Inhaúma, combinando com Tião dividir o dinheiro na volta. Mas observava, sempre que olhava pelo retrovisor, estar sendo seguido disfarçadamente pelo carrão do amigo da viúva. E comentou com o Tião que o homenzinho era cheio da grana, tendo o mesmo dito que o reconheceu como o banqueiro de bicho Juvenal, dono de todas as bancas da redondeza.

No cemitério o homem se mostrou muito eficiente, já estava com quatro indivíduos que tiraram às pressas o caixão, colocaram-no numa carreta e se mandaram cemitério adentro com meia dúzia de gatos pingados para o local do sepultamento.

Na volta, viram que a gorjeta não era gorjeta, era compra de silencio, o homem tinha dado mil reais. Pretinho em sua ingenuidade ficou feliz demais, nem pensou nas conseqüências. João começou a se preocupar e a ficar nervoso. Não dormiu, não com medo do morto, mas das conseqüências. Aquilo tinha sido um assassinato e ele contribuíra para isso, pois não denunciara.

— E agora? O que fazer?

Revirou-se à noite inteira na cama e não encontrou solução, era muito tarde para escapar de uma punição pelo silêncio, ainda mais que levara dinheiro grosso. O homem já estava enterrado e possivelmente morto por asfixia. Não dormiu e tomou uma decisão: como eles não tinham o seu endereço, não sabiam nada de sua vida, não voltaria mais lá e, assim, as coisas podiam ser esquecidas.

— E se o Tião der com a língua nos dentes?

Não pregou olhos, remoendo tragédias e imaginando castigos. Trabalhava na funerária outro motorista muito parecido com João, na altura, cor branca, cabelos soltos, até pensavam que fossem irmãos. João não foi trabalhar. O primeiro carro funerário que ia sair as 7 horas atrasou por sua falta e o outro motorista às 8 horas ocupou seu lugar com Tião como ajudante.

Cem metros à frente da casa funerária, bem na esquina, o carro funerário foi interceptado por duas motos com mascarados que deram dois tiros na cabeça do  motorista e uns quatros no pretinho. No dia seguinte os jornais todos estampavam em manchetes e as estações de rádios  comentavam o assassinato como queima de arquivo:

POR TRAFICAREM COM DROGAS, O MOTORISTA E AJUDANTE DA FUNERÁRIA CARIOCA FORAM ALVEJADOS PELA MANHÃ, ENCONTRANDO-SE 12 PAPELOTES DE COCAÍNA E 500 REAIS NO BOLSO DO AJUDANTE``.

João Evangelista pela primeira vez pensou seriamente em voltar para a roça.


E-Mail: mangabeira50teresa@oi.com.br

 

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