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Arnaldo Nogueira Jr


Tarciso Oliveira é pernambucano de Recife e atual morador de Olinda. Tem 37 anos e é casado. Amante da Música Popular Brasileira, foi através dela que sentiu desejo de se iniciar na arte da escrita. Atualmente trabalha como Programador de Sistemas e divide suas horas livres entre bares, praias do litoral pernambucano, a leitura, a composição de suas músicas e contos. Escreve desde os 18 anos e, por ser muito crítico e exigente consigo mesmo, a maior parte de seus trabalhos joga no lixo. Suas letras de músicas sofrem bastante influência de suas leituras. Procura encontrar na sua região alguém interessado também por música e letras para juntos formarem uma parceria e trabalharem novos temas.


A guerra de Canudos

Tarciso Oliveira


A Neuza não perdia um programa do Otacílio Júnior. O programa tinha tudo o que ela gostava: horóscopo, simpatias, resumo dos capítulos das novelas, receitas, músicas e, ainda por cima, era possível ganhar prêmios respondendo corretamente às perguntas do dia. O programa era levado ao ar, diariamente das oito da manhã ao meio-dia. Neuza sabia de cor todas as simpatias divulgadas no programa. Não fazia nada que fosse desaconselhado para o seu signo. Sabia de tudo o que iria acontecer nos capítulos diários das novelas. E sempre encontrava uma oportunidade, com o aval de dona Beatriz, sua patroa, para testar uma nova receita aprendida no programa do Otacílio Júnior. A pobre chorava, que lembrava o Popó, ao ouvir as músicas dos seus ídolos. Todos os dias ligava o rádio às oito e iniciava a sua viagem nas ondas do seu limitado mundo. A sua única mágoa era nunca ter ganho nenhum prêmio do programa. Ela achava as perguntas muito difíceis. E não entendia como era que tanta gente conseguia ganhar prêmios. Comentava com suas amigas, babás e outras empregadas do prédio, que guardaria para sempre um prêmio que fosse recebido do programa do Otacílio Júnior. Mas, para a infelicidade da coitada, isso nunca acontecia e ela se sentia muito triste.

Naquele dia, Neuza ainda estava espancando os primeiros bifes para o almoço quando Otacílio Júnior anunciava a pergunta do dia:

— Qual o nome verdadeiro do Antônio Conselheiro, protagonista da Guerra de Canudos? Estamos esperando sua ligação, liga pra mim!

Neuza não podia acreditar no que ouvira. Pela primeira vez, desde a estréia do programa, há cerca de dois anos, ela sabia a resposta correta. Correu para o telefone, sabia de cor o telefone da Rádio Coqueiral, pôs o fone no ouvido e discou. Sinal de ocupado. Tentou novamente, ocupado. Mais uma vez, outra e mais outra. Ocupado, ocupado, ocupado. Sempre ocupado. Resignada, ela desiste e volta aos bifes. Dessa vez ela bate com mais força, bem mais força. Alguns, mais espancados, chegaram a perder a consistência. Seria possível? Na única vez que ela sabia a resposta! Põe os bifes na panela, tempera-os, acende o fogo. Destampa a panela do feijão, dá uma remexida nos ingredientes, vê que ainda não está bom, gira o botão para fogo brando, mexe o arroz. Na rádio toca uma das músicas que a Neuza mais gosta, ela não está nem aí, está com raiva. A música termina, ouve-se a vinheta da rádio, Otacílio Júnior entra:

— São nove horas na Rádio Coqueiral. E você, ainda não ligou? Então ligue! A nossa pergunta ainda está no ar. Até agora ninguém acertou a resposta. Liga pra mim!

Neuza arregalou os olhos, correu para o telefone, pôs o fone no ouvido. Estava mudo. Ela não estava acreditando, era uma conspiração contra ela. Não era possível. Tentou mais algumas vezes, nada, sempre mudo.

Dessa vez ela não iria desistir. Lembrou-se de sua amiga três andares acima. Correu para o elevador, ele estava no vigésimo, levaria muito tempo para chegar ao quinto. Foi pela escada. Chegou ofegante ao apartamento 806, bateu na porta. Quem abriu foi a patroa da Esmeralda.

— A Esmeralda está, por favor?

— Não, ela foi até a farmácia. Posso ajudá-la?

Ela não diria à patroa da Esmeralda que estava ali para usar seu telefone e, pior, para ligar para o programa do Otacílio Júnior. De jeito nenhum! Agradeceu e voltou pelas escadas. Antes de chegar ao seu andar, lembrou-se da Neide, a babá do Gustavinho, ficava só um andar abaixo do seu. No embalo que vinha passou direto para o quarto andar. Chegou à porta do apartamento 403 e bateu, Neide a atendeu. Que bom, pensou ela.

— Neide, amiga, posso usar seu telefone? É que o de lá de casa está mudo...

— É, o daqui também. O zelador disse que tem um rapaz mexendo no quadro e...

Decididamente era uma conspiração. Neuza agradeceu e subiu as escadas. Quando estava abrindo a porta do apartamento viu a porta do elevador se abrir. Odiou aquele elevador. Com certeza já perdera a oportunidade de ganhar o prêmio. Volta para a cozinha exausta. Abre a geladeira e retira algumas verduras e legumes para fazer uma salada, abre a torneira. O telefone toca, ela vai atender. É o Cláudio, filho de dona Beatriz, avisando que chegará lá pelas onze horas e que vai almoçar em casa. Quando entra na cozinha escuta ainda o Otacílio Júnior comentar:

—... realmente a pergunta de hoje está muito difícil. Até agora ninguém acertou! Liga pra mim!

Ela reclamara de todos os santos, mas eles a estavam ajudando. Não fosse isso, alguém já teria acertado a resposta. Neuza estava decidida e, agora, conseguiria ligar de qualquer maneira. Pegou o radinho de pilha no seu quarto, a carteira de documentos e saiu. Novamente, não esperou o elevador, ele estava no vigésimo quinto. Desceu os cinco andares do prédio pela escada. Para os seus trinta e cinco anos, até que não estava tão acabada, pensou. Deveria ser reflexo da sua infância no interior, na casa de seus pais: leite de cabra, cuscuz, macaxeira e carne seca todos os dias era lastro para toda a vida. Saiu do prédio e se dirigiu para o orelhão da esquina. No caminho lembrou-se:

— Puxa vida! Se o Claudinho ligou é porque o telefone já tá bom!

Mesmo assim resolveu enfrentar a fila que havia no orelhão. Com o radinho no ouvido, ficava feliz quando o Otacílio Júnior confirmava que a pergunta ainda estava no ar.

— Menina! Não te conto! Sabe a filha da minha patroa? Está grávida de três meses... É, o pessoal tá escondendo, mas eu ouvi uma conversa dela no telefone... — conversava a primeira da fila.

O tempo foi passando, passando. Só faltava uma pessoa na frente de Neuza para ligar. Atrás dela já havia umas duas pessoas. O cara se vira para ela e fala:

— Ué? O telefone ficou mudo!

Neuza sentiu vontade de morrer. Cinqüenta metros à sua frente havia outro orelhão, ela foi pra lá. Quatro pessoas estavam na fila, ela foi a quinta.

—... pois é, desde as nove da manhã que o meu telefone está mudo! Não quero saber, meu amigo! Eu quero é que consertem... — o dono da farmácia berrava com o atendente da companhia de telecomunicações.

O Otacílio Júnior, mais uma vez, convidava os ouvintes para responderem à pergunta do dia:

— Estamos aguardando a sua ligação — dizia ele — Liga pra mim!

Neuza esperava, esperava. Faltava só mais uma pessoa. Agora sim, depois daquela garota seria a sua vez. Ela revezava os pés que apoiavam no chão. Já estava bastante cansada de esperar. De repente a garota grita:

— Alô...alô...alô..tá me ouvindo? Acho que caiu a ligação.

A garota tentou ligar novamente, sem sucesso. O telefone ficara mudo também. Neuza caminhou para o outro lado da avenida e se dirigiu para a padaria, lá tem um orelhão. Só havia uma pessoa ligando. Ela se sentiu aliviada, não esperaria tanto. Otacílio Júnior repetia:

— Qual o nome verdadeiro do Antônio Conselheiro, protagonista da Guerra de Canudos? Estamos esperando sua ligação, liga pra mim!

Ela estava feliz em saber que a pergunta não fora respondida, mas seus pés doíam muito. O cara do orelhão não largava o telefone. Ela fazia uma cara de irritada, mas o ele sequer olhava para ela. O cara, então, se despediu da pessoa do outro lado e pôs o fone no gancho. Era a sua vez. Subitamente ela lembra:

— Meu deus do céu! Eu deixei as panelas no fogo!

Olha para o relógio, são 11:10h. Ela já está bastante longe do apartamento, não daria tempo, ou daria? O Claudinho deve ter chegado. Decide ligar para ele. O Otacílio Júnior está eufórico, no radinho:

— Nosso patrocinador acabou de informar que quem chegar aqui na rádio e responder a pergunta do dia, além do prêmio receberá um vale brinde de cem reais!

Neuza liga para Cláudio. O telefone toca mais de cinco vezes. Cláudio atende:

— Neuza você é doida! Cheguei aqui e estava tudo queimando no fogão. O feijão está todo queimado, os bifes estão parecendo carvão, o arroz virou uma crosta preta dentro da panela! Para completar, tem água por toda a casa!

— Seu Claudinho, me desculpe, é que eu tive de resolver uns probleminhas...

— E agora? O que eu vou comer antes de sair? E essa sujeira toda, como fica?

Propositadamente, Neuza desliga o telefone. Não havia nada a fazer. Já que estava tudo perdido, seria melhor, pelo menos ganhar o prêmio da Rádio Coqueiral. Ligou para a rádio. Ocupado. Tentou mais algumas vezes, sempre ocupado. A rádio ficava a uns dez quarteirões de onde ela estava. Neuza, decidida, parou um táxi e indicou o endereço, ela sabia de cor. Ao seu lado, no ouvido, Otacílio Júnior incentivava os ouvintes:

— Faltam apenas dez minutos para o final do programa! Ninguém ainda acertou a pergunta!

Neuza entrou na rádio em desabalada carreira, informando-se onde ficava o Otacílio Júnior. Indicaram-lhe uma porta, ela correu. Abriu a porta. Neuza agora caminhava mais tranqüila. Pela vidraça já podia ver o Otacílio Júnior. Do lado dele havia uma pessoa que falava algo. Ela rapidamente pôs o rádio no ouvido e, antes de desmaiar, ainda escutou a voz do Otacílio Júnior:

— Resposta absolutamente certa!

Um funcionário da rádio achou o telefone da dona Beatriz na carteira da Neuza. O marido de dona Beatriz foi até a lá buscá-la. Ambos gostavam muito dela e não pretendiam lhe repreender. Ela já estava com a família deles desde os seus quinze anos. Eles eram recém casados quando ela veio morar com eles. Ela criara o Cláudio, que agora já estava com os seus dezenove anos.

— Neuza, agente só quer que você explique o que ocorreu, só isso! Nada mais!

Ela lhes contou toda a história, eles riram à vontade. De repente, Cláudio pergunta espantado:

— Ô Neuza, você sabe qual é o verdadeiro nome de Antônio Conselheiro?

— Claro que sei! Eu vi o filme!

— E qual é? — continuou Cláudio.

— José Wilker, ué!


P.S. — Para quem não se lembra: o nome verdadeiro de Antônio Conselheiro é Antônio Vicente Mendes Maciel. Aos mais desatentos: José Wilker fez o papel de Antônio Conselheiro no filme "A Guerra de Canudos".


E-Mail:
toliveira@tcasa.com.br

 

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