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Arnaldo Nogueira Jr


Valmir Luis Saldanha, nasceu dia 29 de julho de 1987 no interior de São Paulo, vivendo toda a sua infância em Itatinga /SP, hoje estuda Letras na UNESP - Araraquara leciona há três anos Literatura e Redação em colégios da região. Começou há pouco com a Literatura mas já foi bem avaliado em alguns concursos literários. 


Mistérios do indizível

Valmir Luis Saldanha,


Você que me lê que me ajude a nascer.
Clarice Lispector


Antes de qualquer escrita era sempre a mesma coisa, ela sorria para o sol pintado num quadro em seu quarto. O astro-rei sempre a lhe iluminar a face. A quinta grandeza que esperava atingir assim, do “nada”, num estalo; como uma entidade mítica ele estava ali e a encarava sorridente e benevolente com a condição humana, com a ambição humana. Ela ambicionava, mas sua ambição era, antes, outra coisa: queria chegar ao que alguém já chamara de "it" das coisas. Mas não era bom dar nomes – não – nem mesmo "it" lhe parecia um bom nome; havia nisso a intenção de se chegar ao indizível, ao indizível... ao que só se chega dizendo de tudo, experimentando e deglutindo as palavras,esvaziando-as do sentido aparente e carregando-as do “pluri”, do “multi”, do “bi”, do “di”, do caminhar lento e suave do girassol: a vida: o sol.

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Não conseguia se concentrar; aquilo era um suplício para ela. Escrever estava se tornando cada vez mais penoso, o que antes vinha fácil como se debruçar na areia e sentir a água do mar, agora exigia força sobre-humana, descomunal.

Na verdade, seu maior problema era escalar os confins da alma (de sua própria alma), os confins da vida (o que era a vida?). Perguntas. Tudo lhe parecia de uma dificuldade assustadoramente elevada. Ah, o eterno pensar! Pois não seria isso? Estava pensando demais, analisando demais: a mecanicidade. Era isso. Só podia ser isso, não havia outra explicação plausível (não, não havia).

Gostava de escrever, queria, mas não assim! Ela gostava da liberdade, de deixar o pensamento voar livre por sobre as cabeças (as cabeças que pensam demais...). E agora isso!, essa coisa maquinal, sem fibra, essa coisa... Sempre soubera o que escrever, antes era ela própria a escrita. Nunca fora de sentir medo e isto agora começava a mostrar um eu diferente do que ela conhecera, um "ela" – na verdade – que desafiava a olhar para dentro e analisar as coisas todas, o motivo das coisas todas, o porquê das coisas todas, o silêncio das coisas todas. Levaria uma vida toda? Era à tarde... bem tarde, tarde.

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Havia algum tempo que não se ouvia o barulho da máquina de escrever. As únicas coisas que pareciam fazer barulho naquela casa eram os pensamentos e as angústias e as desilusões, tudo o que ela havia escondido durante todos estes anos (e como lhe doía aquilo). Sua dor, áspera, não lhe cabia no peito. O vazio que sentia era imenso... Não sabia o que era nem por que era, o que ela sabia não se consegue colocar em palavras: o indecifrável. A vida passava através de sua memória: seus erros, acertos: tudo! Era demais (a inutilidade da vida?)... era demais (a covardia na morte?)... conviver com ela mesma (e como lhe doía tudo aquilo). A alma, a entrega, as flores sobre a mesa, o jantar à luz de velas (para dois); sua dor, áspera, não lhe coube no peito e saiu... o grito surdo, abafado, destituído. Não soube, nunca saberia: o indecifrável.

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Voltara! Não parecia muito decidida a isso. Entretanto, sabia que há coisas que não se explica e não se entende: faz-se, vive-se, elucida-se, morre-se e não pode haver explicação nem entendimento. Pensava no “isso” e no “nada disso”: buscar o ínterim.

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Pusera os pés para fora depois de muito tempo. Qual a surpresa! Nada mudara: nada do que interessa muda. De fora, sua casa aparentava ser menos aconchegante do que realmente o era. Roçava as flores (murchas) de seu jardim; o tempo passara também para elas: nada do que interessa fica. Pousara um olhar, sereno e silencioso, sobre os escombros. Interrogava-se. Contemplara ainda por um tempo aquela paisagem; ficaria ali se quisesse, ficaria ali a sustentar-se (ao jardim), ficaria ali imóvel, calada, como que a provar que não fora nada – as lágrimas –, que havia passado (como passam as chuvas nos poemas ruins), que ela era forte (como fortes são os que aguentam a cruz), ficaria ali se quisesse, imóvel, estupefata, patética, calada.

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(Nunca morrer assim, numa noite assim! Quando é a palavra que se cala, não se morre; quando é a palavra que se cala, quem fala é o coração. E aqui dentro, o silêncio... nós dois: a entrega, a conversa (abafada, destituída): o indecifrável.)

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A máquina... Tecl, teclas. Passeara. Ninfas e dragões, máquinas, gentios, homens e mulheres, traições e amores e ódios. O caminho: travessia. Agora, a tristeza de um quarto minguante. As palavras, rareadas, mínguam... o astro-rei ao quarto; dentro dela, escasseadas, as palavras mínguam. O sorriso dos que não sabem, o necessário não-saber: mínguam. As dores e os amores e as inquietações, mínguam. Pousara e pausara a mão à máquina. Levara uma vida toda. O eterno retorno: Lua: Nova.

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DIA 02

Ontem o dia foi laminha. Pensei em você quase que o tempo todo. Na verdade, entre um que tinha posto uma tampa de caneta no nariz aqui e outro que tinha engolido um botão acolá, eu pensava em você. Também, não é fácil pensar em você o tempo todo.

Pensei chegar a casa, tomar um banho e ver se saía comprar um vinho... é muito estranho não te ver falando devagar e ficando toda vermelha depois de uma tacinha... Dormi com meia taça.

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Acordei de sobressalto no meio da noite, seu nome da ponta da língua, engoli de volta.

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De manhã, uma ressaca daquelas. Olhei para o lado e vi que aquela meia taça só podia ser “tamanho família”, tomar um banho é sempre uma decisão acertada numa hora dessas. Não segurei o choro no banheiro, mas fingi que não era nada, que era a água quente do chuveiro.

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Decidi ir te ver hoje, espero que não estranhe a descompostura – é que ando meio atribulado. Não, agora não adianta mais, a decisão está tomada: vou te ver hoje! Só tenho que me recordar do caminho...

 

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