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Arnaldo Nogueira Jr


Viegas Fernandes da Costa (1977), é de Blumenau (SC). Licenciado Pleno em História, atua como professor desde seus 18 anos. Contista, cronista, poeta e ensaísta, integra diversas antologias e escreve para vários jornais, revistas e sites brasileiros e do exterior. Edita a coluna de seu site oficial  "Crônica da Semana".


A profecia de Pirapora do Bom Jesus

Viegas Fernandes da Costa


Zé Pedro, Pedra, romeiro, pagava promessa prometida ainda no sertão: o filho que veio e que vingara comendo fé e farinha. Pois então, Zé Pedro é este que vemos descalço e maltrapilho trilhando o asfalto à beira do Tietê. Busca Pirapora do Bom Jesus, cidade de solo santo, destino da peregrinação.

Caminha lento sob o Sol, caminha feliz! Mais de cinqüenta quilômetros desde São Paulo, onde largou do ônibus.

Ainda no sertão lhe falara a aparição d'outro Zé, o José de Almeida Naves, que lá pelos idos de 1725 encontrou sobre uma pedra, na beirada do rio, ali onde agora é a Fonte do Encontro, e onde este nosso Zé Peregrino, Pedra, pretende lavar os pés, a imagem do Senhor Bom Jesus. Imagem milagreira como reza a tradição: enfrentou o fogo sem se queimar e fez surdo-mudo falar, conta o povo e a história do lugar. Mas disto não sabia Zé Romeiro até então. Sabia apenas o que aquele Zé Naves lhe segredara em noite de lua, calor e medo: "presta atenção, vai para Pirapora, agradece teu filho e batiza o nome dele na fonte do Encontro. Mas vai no dia em que o céu será terra, e a terra céu será!".
"Não entendo!" — balbuciou Zé Pedro, feliz por ser pai. "Entenderás! Mas vai, lá onde encontrei a imagem do Bom Jesus. Lá onda a água não se pode beber. Vai." ·

E Zé Pedro foi! Foi porque tinha fé. Foi porque prometeu que ia agradecer o filho vivo. Foi porque a Aparição mandou ir.

Nada sabia da cidade. Pediu informação. Contaram-lhe dos milagres, como aquele do carro de bois. Queriam tirar a imagem do lugar, botaram no carro e tomaram a estrada. Na curva os bois pararam num sem jeito de continuar a viagem. Foi quando o surdo-mudo apareceu e disse, com fala possível de se ouvir, para devolver o Bom Jesus ao lugar em que escolhera ficar. E assim se fez: os bois voltaram, a imagem também e um homem aprendeu a falar. Zé Pedro, peregrino, pensa se não é esta estrada que tocam seus pés descalços a mesma em que pararam os bois naquele tempo distante. Será? Asfaltada, a rodovia dos romeiros, como lhe explicaram os da romaria em que tomara carona naquele dia: o dia da profecia? Como saber? "Entenderás" — falou novamente a voz do José Naves. Não entende nada ainda, mas os pés mandaram ir, o dinheiro guardado para a passagem, e então foi, e está ali, feliz, o Sol quente tisnando o lombo mal coberto pela camisa.

Chegou cansado quando o dia já bocejava de sono. Viu a praça, a fonte, sentiu uma coisa estranha dentro de si, e foi mergulhar os pés na água santa. Mas como cheirava mal aquela água do Tietê! Lembrava a catinga do gado que apodrecia no sertão.

Lá na fonte rezou, agradeceu, lembrou o filho vivo, lembrou a mulher seca como um pau seco, mas bonita aos seus olhos de Zé Pedro. Depois foi até a igreja, bonita, não como a igrejinha tapera da sua terra, de barro, mas de pedra, pintada, telhada, iluminada. Como se sentiu pequeno naquela igreja! E depois saiu para a noite que vinha chegando.

Na praça um banco que acolheu seu corpo. Dormiu encolhido, pois para este Zé do sertão fazia frio naquela noite em Pirapora. E no sono lembrou-se então da profecia, do céu que vira terra, da terra que vira céu. A voz do José Naves martelando em sua cabeça, mandando abrir os olhos, entender. E viu então: as nuvens baixas, cobrindo o chão, cobrindo a praça, cobrindo o banco, cobrindo seu corpo de peregrino. Não sabia que nuvem cheirava mal. Achava que nuvem fosse doce como algodão doce. Mas aquelas nuvens, daquele céu de profecia, cheiravam mal. Cheiravam mal e faziam arder os olhos. E foi com os olhos ardendo que começou a andar sem ver nada além das nuvens. E foi andando que encontrou o Tietê, fétido Tietê. E o Tietê o abraçou. Abraçou e levou embora.

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Lá no sertão uma televisão ligada à bateria entretém pequena multidão. Há, lá no canto, uma mulher seca como um pau seco, como as outras mulheres secas diante da televisão. A mulher seca como um pau seco traz ao colo pequeno menino adormecido. De repente a cena curiosa narrada pelo repórter: espuma de poluição do rio Tietê, com cinco metros de altura, invade a cidade de Pirapora do Bom Jesus durante a madrugada”.

A mulher seca como um pau seco reconhece o nome da cidade: “meu Zé Pedro tá lá”.

E ela achou aquela espuma parecida com as nuvens. E ela achou tudo aquilo muito bonito. E ficou feliz, porque quando voltasse, Zé Pedro ia contar como é tocar o céu.


E-Mail: viegasfc@pop.com.br

 

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